Joel Saget/AFP
Joel Saget/AFP

Para Pierre Cardin, o trabalho da moda era mudar a face do mundo

Inovador e ousado, estilista francês deixou um legado de criatividade e reinvenção

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2020 | 16h13

"Sou um líder, não um seguidor – e me sinto confortável em sê-lo." A frase escrita no Instagram oficial da marca Pierre Cardin após a morte de seu fundador nesta terça-feira, 29, aos 98 anos, reflete fielmente sua personalidade. Pierre Cardin liderou movimentos por toda sua vida, a maior parte, antes de seu tempo. Após trabalhar com Monsieur Dior e tornar-se chefe do atelier de alfaiataria da Maison Christian Dior entre 1947 e 1949, Pierre Cardin fundou a sua própria marca, em 1950. Três anos depois, passou a fazer parte da Câmara Sindical de Alta-Costura de Paris

 

Mas Pierre Cardin queria mais, muito mais. Depois de atender a todas as damas da alta sociedade francesa, a vida ficou monótona. Ele queria vestir a todos e criar algo novo e certamente criou: em 1959, produziu a primeira coleção feminina de Prêt-à-Porter do mundo para loja de departamentos francesa Printemps. Uma coleção com escala teve resistência imediata por puristas da moda na época e Pierre Cardin foi expulso da French Chambre Syndicale. Seguir liderando movimentos tornou-se então a obra de sua vida. 

Em 1960, foi a vez dos homens também terem sua coleção prêt-à-porter. Trabalhador incansável e assumido, Cardin dizia não tirar férias e não praticar esportes. "Sou 100% trabalho e meu maior prazer é esse."  O estilista estava sempre empurrando os limites que o mundo oferecia. Seu senso estético era à frente do seu tempo e o conectava com também líderes de outros movimentos artísticos. Foi o estilista predileto dos Beatles, criador do terno sem colarinho, modelo copiado à exaustão por jovens e estilistas do mundo todo. 

Com seu trabalho voltado sempre para o futuro, participou de uma geração na qual existia um fascínio generalizado pela exploração espacial. Sua coleção de 1964, Cosmocorps, sintetizou seu desejo por vestir mulheres e homens para o futuro que imaginava. Cardin inovou combinando vinil e metal com lã. Foi pioneiro também ao propor uma aparência unissex para suas criações minimalistas. O impacto dessa imagem se tornou forte em todo seu estilo criativo e fez com que o estilista fosse o primeiro civil a provar um dos trajes usados por astronautas na Apollo 11. "O trabalho da moda não é apenas fazer ternos ou vestidos bonitos, mas mudar a face do mundo, por o corte e a linha. É tornar evidente outro aspecto dos homens”, disse, à época.  

Mais uma vez, Cardin intuía e se arriscava a um futuro sendo pioneiro também no licenciamento de um nome de moda. Seu nome e apenas duas iniciais traziam valor e reafirmaram sua devoção de uma vida, a ideia de “vestir” a todos. Agora, não só na moda, mas em mais de 900 licenciamentos em 140 países. A marca se transformou em um império que vende de camisetas, passando por óculos, canetas, sapatos até malas e utensílios de cozinha. “Eu sempre quis ser diferente, ser eu mesmo. Quer as pessoas gostem ou não, isso não importa." Foi diferente e deixa um legado de criatividade e reinvenção. 

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É especialista em marketing de influência e escritora, autora de ‘Moda à Brasileira’

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