Pantanal: paraíso perdido?

Pantanal: paraíso perdido?

É preciso conhecer o Pantanal, entender sua dinâmica e vocação porque só se ama aquilo que se conhece, e só cuidamos daquilo que amamos

João Farkas, Moda

07 de novembro de 2020 | 16h00

Trabalhei por dez anos fotografando a Amazônia. Em 2014, convidado por fazendeiros preocupados com o Pantanal, embarquei em trabalho de documentação fotográfica da região. O que aprendi? O Pantanal é muito mais frágil do que a Amazônia. A poesia do Pantanal, sua riqueza biológica imensa, apoia-se em um tênue equilíbrio entre água e terra, secas e inundações. O poeta Drummond comparou o Pantanal ao amanhecer do primeiro dia da criação. Não é mais. A maior planície inundável do planeta, habitada por 1.082 espécies vegetais e 1.226 espécies animais, está seriamente ameaçada.

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Ao longo das dez expedições, fotografei paisagens deslumbrantes e pantaneiros isolados. Mas vi também o Pantanal arder e o Rio Taquari secar – um rio caudaloso que foi navegado pelos bandeirantes. É fácil encontrar culpados, mas a verdade é que o Pantanal é vítima do Antropoceno: o planeta paga a conta pelo desenvolvimento desequilibrado da espécie humana. A mudança climática, a alteração do regime de chuvas e o calor crescente atingem em cheio a região.

Eu poderia ter preenchido meu mais recente livro sobre o Pantanal, com lançamento para o dia 5 deste mês, apenas com imagens de destruição e desesperança. Não foi a nossa escolha. Decidimos mostrar também uma região magnífica, com paisagens praticamente desconhecidas e toda sua riqueza e potencial. E ajudamos a criar o Documenta Pantanal que apoia e divulga conhecimento e iniciativas de alerta e reconstrução.

Ao lado de incêndios e inundações permanentes, mostro o esplendor do que estamos destruindo antes de realmente conhecer. É preciso conhecer o Pantanal, entender sua dinâmica e vocação porque só se ama aquilo que se conhece, e só cuidamos daquilo que amamos. Como fotógrafo, muitas vezes fui testemunha da história humana. Hoje somos todos testemunhas e vítimas de transformações aceleradas do planeta. O que ocorre no Pantanal e em outras regiões da Terra é um grito de socorro. Ainda é possível agir e fazer diferença.

*João Farkas é um observador da cultura popular e da relação entre homem e natureza. É autor de um acervo magnífico de imagens do Brasil, em especial da Amazônia e do Pantanal, este último tema de seu novo livro, a ser lançado este mês. Farkas também é atualmente membro do Documenta Pantanal, iniciativa de preservação da região.

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