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Os defensores do Pantanal

Eles não têm roupas da Marvel, mas têm superpoderes. Conheça quatro importantes personagens brasileiros que lutam para preservar a maior planície alagada da face da Terra

Renata Piza, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2021 | 07h03

MÔNICA GUIMARÃES

A SUPERCONTADORA DE HISTÓRIAS

 

“Salvar o Pantanal, eu quero ser o primeiro.” A frase que abre o documentário Ruivaldo, O Homem que Salvou a Terra é, talvez, a melhor maneira de compreender o deslumbramento que o Pantanal causa na gente, a vontade de preservá-lo de qualquer maneira. Dirigido por Jorge Bodansky, com fotografia de João Farkas e produção de Mônica Guimarães, ele narra a história do fazendeiro diante das consequências do assoreamento do Rio Taquari. E acabou sendo o ponto de partida para a criação do Documenta Pantanal, que, em apenas dois anos, apoiou e produziu quatro livros, coordenou dois documentários e se prepara agora para promover em 26 de maio (anote na agenda) um leilão virtual de arte contemporânea com venda revertida em prol do bioma.

“O Pantanal é de um deslumbre estético e de uma inteligência própria tão grande. Precisamos abrir os olhos e ouvidos para quem está ali”, diz Mônica, que assumiu a coordenação do Documenta e tem se empenhado em disseminar a cultura pantaneira em todas as suas frentes: culinária, música, dança. “Não vemos um projeto cultural de Mato Grosso, de Mato Grosso do Sul. Nossa meta é arrecadar R$ 1,2 milhão no leilão”, conta a santista de coração pantaneiro. Dinheiro que será revertido à SOS Pantanal para custear a formação de brigadas rurais em diferentes pontos da planície: três em Poconé, duas em Corumbá, duas em Barão de Melgaço, duas na Chapada dos Guimarães e uma em Santo Antônio de Leverger.

ANGELO REBELO 

O SUPERSOLDADO

“Tive uma relação com o Pantanal à base de bala e de encantamento. É um misto daquilo que Manoel de Barros fala, essa ‘ilimitude’ de encantamento e desafio.” Foi em 1982, no auge da caça ao jacaré, que  ngelo Rebelo, recém-saído da escola de oficiais, chegou ao Pantanal. “Perdi um soldado com um tiro na testa e levei um tiro no ombro”, conta ele. “Fiz dez cirurgias e passei dois anos em São Paulo me recuperando.” Não perdeu o encanto. Mineiro de BH, que passou a infância e adolescência em Mato Grosso do Sul, Rebelo vive hoje entre Corumbá e a Serra do Amolar, onde fica o Instituto Homem Pantaneiro, fundado e presidido por ele. Vive subindo e descendo os rios. Monitora o assoreamento, segue na luta contra as queimadas. Encontrou sua missão de vida.

“A sensação da impotência e perda que tivemos em 2020 ainda ardia na minha pele em janeiro deste ano. Os animais não tiveram nenhuma possibilidade de fuga. Falhamos brutalmente.” Um trauma que ele compara à guerra da década de 1980. “O fogo consumiu áreas imensas em 24, 48 horas. Era humanamente impossível segurá-lo com ventos de 40, 50 km por hora, muita matéria orgânica, tempestade de fuligem e fumaça. Foi assustador em todos os sentidos.” Para que a história não se repita, Rebelo saiu na frente – embora frise que esse é um trabalho em conjunto, feito para complementar, não substituir o governo. Com o dinheiro de um prêmio da Unesco e a ajuda da SOS Pantanal, o Instituto Homem Pantaneiro comprou três carros-pipa e formou duas brigadas permanentes na Serra do Amolar – que já estão criando rotas de fuga para fauna, monitorando as condições climáticas e conversando constantemente com a comunidade. “O Pantanal é de uma fragilidade que chega a ser fascinante. Você vê a variação que acontece no bioma de centímetro a centímetro de água; se dá conta de o que acontece no planalto interfere na planície, de como as condições climáticas desafiam sua sobrevivência”, enumera o homem que não nasceu, tornou-se pantaneiro.

NEIVA GUEDES 

A SUPERBIÓLOGA 

Formada em Biologia e nascida em Ponta Porã, Mato Grosso do Sul, Neiva Guedes queria trabalhar com pesquisa de campo, mas nos anos 1980 não existiam muitos projetos assim no Brasil. Partiu então para a educação, até que em 1989 conseguiu voltar ao Pantanal, onde havia estagiado quatro anos antes. “Quando voltei, vi as araras-azuis numa árvore de galho seco e soube que elas estavam correndo risco de extinção. Decidi ali preservá-las.” Era novembro de 1989 e Neiva tinha 27 anos. Conselheira da SOS Pantanal e fundadora do Instituto Arara Azul, ela conta que o trabalho de preservação da espécie é possível graças a doações privadas (a Fundação Toyota é uma grande parceira), turismo de observação e adoção simbólica de ninhos. Um trabalho que já dura 30 anos e que demanda resiliência, tamanhos os desafios encontrados: variações bruscas de temperatura prejudicam o processo reprodutivo.

Os incêndios em 2019 e 2020 geraram efeitos nocivos não só na hora da queimada, mas ao longo do tempo, e as araras ainda sofreram com uma epidemia de herpes vírus. “Conseguimos identificar 200 araras mortas e não é fácil encontrar bichos mortos no Pantanal, porque eles são rapidamente devorados por outros animais”, explica Neiva, que se mantém firme e forte na missão. “Minha visão continua a mesma de 30 anos atrás, de encantamento, de saber que, apesar de tudo, o Pantanal é um dos biomas mais conservados do mundo, abrigo de espécies ameaçadas, como antas, onças-pintadas, tamanduás-bandeira e, claro, araras-azuis.”

ALEXANDRE BOSSI 

O SUPERINTERLOCUTOR 

O mineiro radicado em São Paulo Alexandre Bossi é formado em Economia e Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas e sempre trabalhou no mercado financeiro. Mas, a partir de 2018, passou a se dedicar também à SOS Pantanal, uma espécie de “internet pantaneira”, que coleta e passa informações, dá suporte a pesquisadores, e advoga junto aos poderes públicos. “Atuamos em duas frentes. Damos voz a quem vive de ecoturismo e protege o Pantanal, difundindo o trabalho de pousadas, por exemplo, e fazemos a interface com prefeituras, Estados e governo federal mostrando a importância do bioma e as ameaças que existem.” Ameaças que, infelizmente, se espalham. Entre águas e seca, o equilíbrio é tênue.

“A umidade do Pantanal pode estar danificada de uma forma estrutural. Ela vem do sul da Amazônia, que está sendo desmatada. Além disso, sofremos com o assoreamento dos rios. Das quatro mil nascentes que desembocam aqui, nenhuma está no Pantanal.” Ou seja, quando os produtores rurais desmatam no planalto, a areia desce toda para o Pantanal e impede o fluxo de seca e cheia, desenhado pela natureza. Resultado: áreas enormes alagadas para sempre. “As pessoas só protegem o que conhecem e pouca gente conhece o Pantanal.”

COMO AJUDAR: 

Documentapantanal.com.br 

Institutoararaazul.org.br 

Institutohomempantaneiro.org.br 

Sospantanal.org.br

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