Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Orquestra dos sonhos

Fiquei alguns dias profundamente tocada com a excelência da nossa Orquestra Sinfônica de São Paulo e como nós, seres humanos, somos capazes de nos organizar em grupo para dar vida ao extraordinário

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2020 | 03h00

Essa semana, fui convidada para assistir a um concerto da Osesp, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, na belíssima Sala São Paulo. Depois de 8 meses sem assistir a um concerto, eu e Fernando aceitamos felizes, na verdade, até eufóricos. A sala receberia um público muito reduzido, 40 pessoas convidadas para um espaço onde 1.200 pessoas podem estar. Seria uma noite única e foi.

Sentia-se um entusiasmo no ar, músicos ansiosos por finalmente, depois de meses, tocar para um público ao vivo, e nós, uma pequena e privilegiada audiência em êxtase ao olhar a sala praticamente vazia se abrindo aos nossos olhos e ouvidos.

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A música tem um poder quase mágico ao trazer a tona emoções no ser humano. Força, paixão, tristeza transbordam facilmente ao som das músicas que fizeram parte da nossa história. Mas, na minha vida, concertos de música clássica acessam também outro canal de conexão. A orquestra em perfeita sintonia, onde cada músico e instrumento tem o momento de entrar e sair de cena em alinhamento completo com todos os outros participantes, me faz perceber e sentir o perfeito equilíbrio que pode ser atingido nesse movimento de consciência do próprio espaço e de respeito ao momento do outro.

A imagem que me vem à mente nesses momentos de perfeita harmonia da filarmônica cria uma analogia entre os integrantes dessa espécie de organismo vivo e a convivência entre seres humanos no mundo. Sabemos que essa unidade alcançada em concertos é expressão, primeiro, de uma vida de estudos individuais de cada músico aliada a uma vontade de compor seu papel dentro do grupo. Cada instrumento deve entrar em momento determinado, nada é aleatório e nem existe liberdade individual se ela não estiver em total sintonia com a composição coletiva.

Estar apto para essa tarefa é mais do que saber tocar com perfeição. É saber se unir a diferentes partes, compor com o diferente que se transforma em complementar, para a partir dessa união criar algo. A descrição da cena pode parecer limitador para quem participa, mas quem se entregou ao prazer de um concerto sabe que a sensação transmitida é oposta. Uma liberdade arrebatadora ao ouvir a estrutura da melodia tomando forma quando cada parte cumpre seu papel , entregando o melhor para o propósito de trazer a vida e a música.

Fiquei alguns dias profundamente tocada com a excelência da nossa Orquestra Sinfônica de São Paulo e como nós, seres humanos, somos capazes de nos organizar em grupo para dar vida ao extraordinário. Fiquei também extremamente inconformada. Assim como temos talento para a união no sentido de criarmos em conjunto algo que supera o indivíduo, temos a mesma capacidade para divisão e falta de alinhamento com objetivos comuns.

Como explicar a perda de tantas vidas para a pandemia que estamos vivendo? Como ainda não nos organizamos em grupo para que tenhamos alimento para todos? Como um abismo social tão profundo no nosso País e no mundo ainda existe?

Uma analogia simples e talvez até ingênua, mas que alimenta uma visão cristalina do que seria possível. Da mesma forma que na orquestra, unidos, cada de um nós, mesmo com restrições individuais, poderia realizar a sua parte e contribuir em sintonia para uma melodia única e benéfica para os seres humanos e o planeta.

ALICE FERRAZ É ESPECIALISTA EM MARKETING DE INFLUÊNCIA E ESCRITORA, AUTORA DE ‘MODA À BRASILEIRA'

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