Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Olho mágico

Onde estava mesmo aquele colírio que parecia trazer luz à sua visão quando ainda viajava sobre oceanos em longas horas de avião?

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2021 | 15h00

Há um ano, ela descobriu a “inimiga” que cresceu sorrateiramente sem que ela se desse conta. No seu mundo pré-pandemia, com viagens de trabalho constantes e falta de atenção a detalhes do próprio corpo, aliado a unhas vermelhas refeitas a cada semana, foi fácil ela passar despercebida. Já na primeira semana em quarentena, quando se olhou mais atentamente, se deu conta que aquilo que poderia ter sido tratado com facilidade no começo, agora se alastrara. 

Sempre gostou dos seus pés, então, foi com desagrado que admitiu estar com micose por baixo do reluzente esmalte Dior 999, cor clássica criada em 1953 e que para ela simbolizaria sempre a força, A GARRA, necessária para sua jornada. Sendo o Google o mais presente médico para "pequenas causas" do momento, ela correu para entender o quão difícil seria sua situação. Descobriu que parecia fácil se livrar daquilo com ajuda de gotas de um pequeno frasco de um composto de ácidos que deveria pingar nas unhas. Reconfortada, seguiu a vida, pingando ácido, pintando as unhas, curando as garras. 

Até que, em meio há um ano que nunca teve fim, desafios diários, transformações inimagináveis e alguns dias em que os astros pareciam ter se unido para, com violência, fazer com que enxergasse algo que ainda estava sob a névoa, ela chegou em casa. Exausta, se olhou no espelho e achou seus olhos pretos um tanto amarelados e, rapidamente, buscou uma solução. 

Onde estava mesmo aquele colírio que parecia trazer luz à sua visão quando ainda viajava sobre oceanos em longas horas de avião? Onde ele estaria escondido esperando a vez para voltar a entrar em cena? Abre gaveta, fecha gaveta. Com certa fúria e ansiosa para resolver ao menos esse minúsculo problema, ela enxerga o pequeno frasco mágico bem em cima do balcão do banheiro. “Como é que não vi antes?" Perguntou-se parecendo ter a exata noção do quão desatenta estava para si mesma novamente.

Abriu bem o olho, pingou duas gotas bem focadas no meio de cada um deles para não ter erro. Mas eis que um grito de terror pôde ser ouvido há quarteirões e seu marido, logo ali na sala de TV, pula do sofá em pânico. As gotas de luz foram confundidas com as gotas de ácido e a dor lancinante que passou em alguns minutos deu lugar a um mundo turvo e manchado por horas. Lembrou imediatamente do livro que marcou uma fase da sua vida, baseado na tese da doença como caminho para cura. Tal publicação defende que tudo que afeta nosso corpo primeiro afetou nossa alma e, só depois, sem nosso olhar atento, se tornou físico para chamar nossa atenção.

O olho foi investigado no mesmo dia por uma excelente oftalmologista que garantiu que a vista estava salva. A consciência de lembrar que olhar para si, seu corpo e seus limites devem fazer parte do seu dia a dia a fez desenhar um olho em seu espelho. Olho pintado com o esmalte Dior 999. Atento e cheio de força.

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