Fran Parente
Fran Parente

Olhar ancestral: a artista, poeta e ativista Cecilia Vicuña

Vencedora do Leão de Ouro em Veneza, a artista, poeta e ativista Cecilia Vicuña tem uma obra profundamente conectada com a natureza e seu passado inca

Beta Germano, Moda

08 de maio de 2022 | 06h00

Quem chega à 59ª Bienal de Arte de Veneza se depara com um enorme cartaz que estampa um olho enigmático, mas que traduz muito da exposição The Milk of Dreams, curada por Cecilia Alemani: um mundo místico, feminino e ancestral. A imagem de divulgação da mostra foi retirada de um dos quadros mais emblemáticos da coletiva: Bendígame Mamita (“Me abençoe mamãe”), da artista Cecilia Vicuña, vencedora do Leão de Ouro deste ano. 

A pintura é uma homenagem aos tempos em que o Chile era um país “exuberante, fértil e vibrante” e à criatividade da mãe da artista, Norma Ramirez, com seu olhar “conectado com consciência da própria vida” diante de uma circunstância traumática – em 1972, cinco anos antes de o quadro ser pintado, Cecilia saiu de Santiago para estudar em Londres e nunca mais voltou a morar em seu país pois um golpe violento derrubou o então presidente Salvador Allende. Sua vida e seu trabalho são profundamente marcados pela dor do exílio, mas também pela forte conecção com a natureza, a mãe e ancestrais incas.  

No mundo, Cecilia ficou conhecida por retomar tradições de comunidades indígenas por meio da feitura de “quipus” (trabalho têxtil usado pelo povos pré-colombianos para registro de histórias em língua quéchua), geralmente na cor vermelha, e pelas performances nas quais ela reproduz cantos arcaicos. “Vi um quipu, pela primeira vez, em um livro de minha tia Rosa Vicuña, e entendi que essa memória havia sido massacrada não só por colonizadores, mas também por chilenos que desprezavam sua própria cultura e identidade.

Queria dar-lhe vida novamente, mas comecei fazendo anotações. Senti a necessidade de fazer um quipu quando fui exilada. Tive que começar a “tecer meu caminho de volta”, explica a artista que ganha, este mês, uma exposição no Guggenheim de Nova York onde os visitantes poderão ver uma versão inédita de seus quipus. 

Ela tinha apenas 17 anos quando sentiu um vento gelado repentino abraçar o seu corpo, “como se fosse uma cobra ao redor da cintura”, na praia de Concón, no Chile. Naquele instante ela percebeu “como o mar, o sol, o vento e a areia estavam vivos e conscientes”.  Foi quando entendeu que “sua própria consciência era parte de uma consciência universal”. Ela fez, então, o que talvez tenha sido a primeira arte povera da América Latina: pegou um pauzinho e o cravou na areia, criando o que considera seu primeiro trabalho de arte.

De lá para cá, ela plantou árvores como um ato artístico e criou muitas performances no Rio Mapocho – sempre unindo arte e consciência ambiental. Para Cecilia, o rio é um dos maiores símbolos da destruição de uma paisagem sagrada que resulta em um problema ecológico: hoje virou depósito de esgoto e resíduos químicos. Sua mãe vive em Santiago, a poucos passos da margem do Mapocho. E é para lá que Cecilia retorna com frequência para conversar com o rio e com os sábios olhos de sua mãe.  

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