Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Óculos cor-de-rosa

Ver o mundo através dos óculos cor-de-rosa, como dizia sua mãe, tinha, no entanto, um efeito secundário que a fazia ficar mais tempo do que o necessário em situações difíceis

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2021 | 15h00

A irmã caçula foi quem abriu os olhos dela: “Você tem essa ‘mania’ de enxergar sempre o lado bom”, disse em tom de crítica e admiração. Ela já sabia disso. Sabia que era a forma de viver dela. Racionalmente, entendia que a vida não era fácil, qualquer vida em tons diversos tem seus desafios particulares. Emocionalmente, na maior parte do tempo, sentia o pulsar dessa vida mais forte que seus desafios. E esse pulsar sempre era potente o suficiente para tirá-la da tristeza e inércia nos momentos ruins. A vida dela era boa e nada iria mudar essa verdade.

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Ver o mundo através dos óculos cor-de-rosa, como dizia sua mãe, tinha, no entanto, um efeito secundário que a fazia ficar mais tempo do que o necessário em situações difíceis, na crença absoluta de que ela podia melhorar fatos, pessoas e momentos. Olhar para a vida achando que tudo sempre tinha solução e podia dar certo, criava barreiras para enxergar que certas mudanças não acontecem e simplesmente temos que abandonar o barco e partir. 

Na infância, esse “vício” em ser feliz tinha sido importantíssimo na criação de uma “cápsula” de alegria. Ela tinha aprendido a tal artimanha aos 8 anos em um livro chamado Pollyanna, de Eleanor H. Porter. Nele, a protagonista da história brincava do que ela chamava de “o jogo do contente”, no qual sempre inventava um motivo para estar feliz. 

A descoberta da possibilidade de criar sua própria realidade se tornou, então, uma fuga e um conforto. O jogo do contente passou a fazer parte de seu cotidiano em pequenas e grandes tristezas e, depois de certo tempo, ela nem percebia mais que era um jogo. Se algo não ia bem em sua vida, ela achava o ângulo que, como em um passe de mágica, transformava a situação. 

Durante a infância, os prós da brincadeira foram sempre maiores que os contras. Uma criança feliz é mais bem-vinda, mais querida – e ela era sempre o xodó da família e das amigas de sua mãe. Já na adolescência, sua alegria muitas vezes foi confundida com falta de inteligência para perceber a realidade. Lia muito e sabia que adolescentes sofriam, então, carregava as críticas e sua parcela de dor com a tal alegria que já fazia parte da sua natureza.

Na juventude chegou a ouvir, em diversos trabalhos, criticas duras sobre o assunto: "Você ri demais, é simpática demais". Sua constante energia de fazer, criar e recriar caminhos para encontrar a tal felicidade irritava certos grupos, como se ela vivesse na fantasia. Olhando agora para trás, perguntava-se se essa fantasia não tinha sido a chave da felicidade real que tinha encontrado pela vida.  

Nesse dia, ao lado da irmã, um novo desafio pareceu tomar forma em sua frente. Agora, na maturidade, seu objetivo era não deixar que os tais óculos cor-de-rosa criassem distorções na realidade a ponto de alterar suas decisões, sua rota. Perder tempo “caramelizando” pessoas, fatos, parcerias, a ponto de esconder que não eram mais as corretas para esse momento.

A maturidade pede urgência por nos apresentar a finitude da vida. Os óculos cor-de-rosa continuam com ela, mas pedem para ser usados com mais sabedoria. Pedem para que o tempo de vida seja ao lado de pessoas que também usem o tal acessório e que estejam familiarizadas com o jogo do contente.

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