Bob Wolfenson, Fernando Laszlo e Galeria O
Bob Wolfenson, Fernando Laszlo e Galeria O

Objetos que falam

Humberto Campana, uma das mentes por trás da dupla Irmãos Campana, fala sobre a nova exposição na França e relembra ícones de sua trajetória

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2021 | 05h00

Caracterizar e definir o trabalho dos Irmãos Campana não é tarefa fácil. Com 35 anos de carreira, a dupla brasileira dança com muita elegância entre a linha que une arte e design. Suas produções, a maioria peças de mobiliário únicas e disruptivas, fazem parte das coleções de museus e instituições culturais, como a do Musée Des Arts Décoratifs de Paris, MoMA de Nova York e Museu de Arte Moderna de São Paulo, mas, também estão em casas de amantes de design do mundo todo e ganharam as ruas, em coleções feitas para marcas como Lacoste, Melissa e a grife italiana de bolsas NC, essa a mais recente. 

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“Hoje o design e a arte caminham juntos, isso é muito positivo. Se você faz um móvel que conta uma história, que tem uma ligação com algo, esse móvel se torna uma escultura dentro da sua casa. É um objeto que fala”, reflete Humberto Campana, que ao lado de seu irmão, Fernando, comanda o Estúdio Campana. 

As frases de Humberto contêm poesia, de reflexão e profundidade. Uma mente inquieta que sofreu com o que ele chama de “cárcere” da pandemia. Sem poder viajar, teve de achar nos espaços limitados e na dor da falta a inspiração e sua principal conexão com a vida para poder realizar suas criações. “Ficar em casa e olhar para dentro foi um exercício intenso e revelador. Parte de minha inspiração sempre esteve muito ligada à natureza e esse contato, mesmo em meu pequeno jardim, se tornou fundamental nesse período.”

Com peças prestes a serem exibidas na nova exposição Arcimboldo Face to Face, que abre ao público no próximo dia 29 no Pompidou-Metz, espaço cultural francês da cidade de Métis que é um braço do Centro George Pompidou de Paris, a dupla reforça ainda mais sua conexão com a arte. As criações fazem parte da mostra dedicada ao italiano Giuseppe Arcimboldo, que é considerado um precursor do surrealismo e ficou conhecido por criar retratos humanos usando elementos do mundo animal e vegetal. 

“Desde que eu comecei a ter contato com a arte, aos 14 anos, eu notava o trabalho de Arcimboldo e admirava esse imaginário que o permitia criar rostos com cenouras e galhos de árvores. Acho que sempre fizemos isso em nosso trabalho, deslocamos materiais e colocamos em outro contexto. Nós ressignificamos objetos criados pelo homem. Acho que foi esse ponto em comum que interessou à curadora [CHIARA PARIS], que nos convidou”, reflete Campana. Os irmãos, que contam com três peças na mostra, uma delas inédita, estão acompanhando a montagem da exposição à distância, virtualmente, mas ressaltam a beleza da cenografia e da arquitetura do centro, que é assinada pelo arquiteto japonês Shigeru Ban.

Além da interessante conversa entre arte e design, o trabalho dos Campana também tem uma conexão marcante com a moda. O estúdio já criou móveis para a marca francesa Louis Vuitton, camisetas para a Lacoste, uma delas feita com centenas de logos da marca costurados para formar a peça de roupa, e no início deste ano lançaram dois modelos de bolsa em parceria com a marca italiana NC. As peças feitas à mão em edição limitada contam histórias e carregam propósitos que começam pela escolha de materiais. Uma delas, chamada Raízes, é feita de Panno Casentino, tecido que teve origem no século 13 e é criado a partir da lã tradicional da região de Casentino, na Toscana. Já o outro modelo leva o nome Wanda, em homenagem à personagem feminina do romance A Vênus das Peles, de L. Sacher-Masoch, e é feita de um couro sintético e ecológico, desenvolvido a partir das fibras das folhas do abacaxi, um material chamado Piñatex.

Com um trabalho em diversas vertentes e uma visão poética para os objetos, os Irmãos Campana seguem traçando um caminho que leva a força criativa do Brasil para o mundo, dando vida a objetos repletos de significado. “Hoje em dia as pessoas querem coisas que contenham história, que contém de onde elas vêm, criando assim uma relação de afeto com o objeto que deixa de ser descartável. Acho que essa é a mentalidade do século”, afirma Humberto Campana. 

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