Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

O sagrado

Seja no calendário judaico ou no cristão, eu e meu marido aprendemos com nossas diferenças e respeitamos o sagrado na vida de cada um

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2020 | 03h00

Esta semana, se comemora o Rosh Hashaná, o ano novo judaico. Segundo a crença, é neste período que D’us determina o destino de cada um de nós para o ano que se inicia. Meu marido, Fernando, é judeu e aprendi há quase 15 anos a importância desse dia para ele e toda a comunidade. No Natal, na Páscoa e em vários outros momentos do ano, seja no calendário judaico ou no cristão, aprendemos com nossas diferenças e respeitamos o sagrado na vida de cada um. Esse foi um espaço inegociável na nossa relação amorosa desde o começo e garantiu, em um primeiro momento, o direito à nossa escolha individual. Após alguns anos, convivendo com nossas diferenças, surgiu um carinho sincero à crença do outro.

Quando nos conhecemos, sentimos ao nosso redor a tensão gerada por uma possível união entre pessoas com religiões diferentes. “Casamento?”, me diziam. “Só se você se converter e se comprometer com uma nova fé.” Na época, já aos 36 anos, um filho de 9 e uma história de vida familiar e pessoal cristã, isso não passava pela minha cabeça. Ao mesmo tempo, éramos um casal em que a espiritualidade e os rituais de nossas religiões eram importantes e faziam parte de nossas vidas. Abrir mão dessa área também não estava em discussão. E assim seguimos. Fernando, além de gostar das festas judaicas, que são muitas, quis colocar a mezuza (pequeno pergaminho que contém passagens da Torá e fica preso nas portas das casas de famílias judaicas) em todas as portas de casa assim que fomos morar juntos. Eu, ao mesmo tempo, sou devota de Santa Terezinha e de Nossa Senhora das Graças e gosto de estar cercada por elas em casa e no escritório. Bem, de longe esse novo “par” parecia fadado ao insucesso.

O que aconteceu foi que nenhum dos dois tinha qualquer interesse em influenciar mudanças no comportamento religioso do outro. Na verdade, desde o começo senti vontade de saber mais sobre o judaísmo e a curiosidade do Fernando foi crescente sobre o que fazia minha emoção vir à tona quando me via em oração. Com o tempo, as festas de cada um foram integradas e partilhadas. Meu filho Gabriel aprendeu a comer e gostar dos diferentes gostos das comidas de cada festa e a participar de rituais novos em diferentes ocasiões. Enxergou sempre mais semelhanças do que diferenças e sabe repartir seu coração entre nossa fé e a sua própria, que tem na natureza sua principal conexão.

Rosh Hashaná é o ano novo e também é quando todas as criaturas são julgadas por seus méritos. Em um ano desafiador como 2020, a data se torna mais importante, mais cheia de significado. Queremos ansiosamente receber uma “pista” para saber se nossos desafios foram ultrapassados com mérito ou se ainda há mais por vir. Estamos carentes de um caminho que nos mostre confiança e certeza de onde estamos pisando.

Assim como eu e Fernando não tínhamos como saber quando nos conhecemos que o casal “azarão” conseguiria passo a passo chegar tão perto de um casamento que “deu certo”, nunca saberemos se atingimos a pontuação necessária nos desafios que enfrentamos. Diz o rabino Nilton Bonder que “somos parte, meio e não fim. Que estamos aqui para planejar, caminhar e não para saber quando e como será o final”.

*ALICE FERRAZ É ESPECIALISTA EM MARKETING DE  INFLUÊNCIA E ESCRITORA, AUTORA DE ‘MODA À BRASILEIRA’

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