Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

O passado no passado

Existem histórias que não têm lugar no presente, como aquela roupa que você amou, que te remete a momentos marcantes, mas que ao colocar você tem a certeza de que está fora de contexto

Alice Ferraz, Moda

03 de julho de 2021 | 23h00

Essa semana foi a semana do passado: em um pequeno intervalo de três dias, ele bateu à minha porta com insistência. Veio cheio de boas intenções e se reapresentou comedidamente como se fosse algo novo tentando, assim, fazer parte do presente e, quem sabe, até abrir uma porta para o futuro. 

Em todas as ocasiões, me encheu de nostalgia de um tempo que não existe mais, de uma mulher que não existe mais, em um mundo que andou para frente. Essa é a questão do passado: por melhor ou pior que tenha sido e por mais marcas que tenha deixado, ele tem um lugar já definido.

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Vamos primeiro fazer a distinção entre o reencontro e o passado querendo se fazer presente. O reencontro promove novas oportunidades, vem de um lugar de possibilidades ainda não vividas entre amigos, amores e parceiros profissionais em que por momentos de vida ou escolhas deixamos acontecer um hiato na relação. 

O reencontro é a árvore jovem que ainda pode oferecer floradas. Já o passado batendo à porta vem de um lugar de experiências que vivemos à exaustão e decidimos – ou a vida decidiu por nós – deixar ali no passado mesmo. Normalmente, esse espaço parece resolvido, mas, se a porta for aberta, ele, o passado, entra trazendo um retrato preciso de sentimentos bons e ruins que fazem parte da história de nossas vidas. 

Sabe aquele ex-namorado que reaparece e você sabe que não faz o menor sentido se conectar? Ou aquela amiga que te fez sofrer, que te ajudou a amadurecer até, mas que só de ver a foto já te dá um calafrio? Pois esse é o passado que deve estar no passado. 

Existem histórias que não têm lugar no presente, como aquela roupa que você amou, que te remete a momentos marcantes, mas que ao colocar você tem a certeza de que está fora de contexto, fora do tempo certo para ser usada. Você pode até guardar por anos só para, quando pegar, sentir uma parte dessas sensações já vividas, mas o ideal mesmo é deixar na memória e doar, ver ela ter melhor uso em outras e novas histórias. 

Tudo simples quando explicamos racionalmente, certo? Mas “sou humano e nada do que é humano me é estranho”, diria o pensador Terêncio para Alice. Me debati por dias em reflexões sobre momentos diferentes do passado, até conseguir que a razão e a emoção dessem as mãos e estivessem em harmonia, e o impulso para me debruçar novamente em questões irresolvíveis fosse entendido simplesmente como humano. 

Aceitar que o passado tem um lugar de dores que não passam, a dor que não pode ser curada e deve ser só acolhida. Parece triste? Mas não é. É a vida na maturidade, como ela é.

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