Chris Pizzello/Pool via REUTERS
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O Oscar do novo mundo

Uma moda linda, de fato, mas também absolutamente fora de contexto

Alice Ferraz, Moda

01 de maio de 2021 | 23h00

Todo ano me preparo. Descanso à tarde (confesso sou uma dorminhoca assumida) para estar 100% atenta. São raros os programas que juntam minhas paixões, mas o Oscar sempre foi esse momento de união entre a sétima arte, o cinema e as tendências de moda e beleza. Até que 2021 mudou tudo mais uma vez. Pronta para a noite, que ocorreu na última semana, não havia, no entanto, me preparado para o “novo Oscar”.

Eu sabia que a cerimônia seria online e, habituada a esse ambiente, estava animada e cheia de expectativa. Mas o mundo mudou e eu, agarrada às imagens já conhecidas do tapete vermelho, me vi esperando a conhecida cerimônia aparecer na tela sem me dar conta de que a premiação também era outra. 

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O longo e glamouroso vestido Armani vermelho da atriz Amanda Seyfried, que seria minha predileta e que trazia cabelos delicadamente presos em um penteado perfeito para qualquer festa de Oscar, agora, parecia saído de um túnel do tempo, do tempo pré-pandemia, pré-George Floyd, pré tantos acontecimentos que nos mudaram profundamente.

Uma moda linda, de fato, mas também absolutamente fora de contexto. Mas qual contexto, Alice? O contexto em que está enquadrado este abril de 2021 no planeta Terra, em qualquer lugar que se esteja, respondi prontamente para mim mesma. A partir desta tomada de consciência repentina e não convidada previamente para esse momento de puro entretenimento, o Oscar mudou para mim. 

Quem fazia sentido na imagem do novo Oscar era a diretora chinesa Chloé Zhao que, vestida em um conjunto em tom de areia, sem joias, sem maquiagem e de tênis, recebia a estatueta pelo melhor filme de 2021 por um longa de poucos atores e muitas pessoas comuns. Em pouco tempo assistindo ao evento, percebi que o problema “túnel do tempo” da primeira atriz não era o vestido ter ou não cor, ela usar ou não joias ou salto.

Assim, assisti com alegria à atriz Zendaya chegar à premiação dentro de um vestido amarelo-vivo com seus cabelos longos, naturais e soltos ao vento, usando joias e, mesmo assim, trazendo uma atualidade instantânea. Diferentemente de Amanda Seyfried e seu look vermelho, lindo, porém datado, Zendaya exalava a energia dos novos tempos, assim como Chloé Zhao. 

Para ler o tempo em que vivemos através de imagens de moda, deve-se libertar da imagem da beleza pela beleza. É preciso se abrir ao novo sem saber de onde ele vai surgir. E, assim, a nova figura tem a possibilidade de tomar forma e mostrar um novo caminho para um novo mundo. 

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