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Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

O mundo de sonhos da alta-costura

No convite, a mensagem clara era: compartilhem, vamos mostrar ao mundo o que é a alta-costura

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2020 | 03h00

Por acompanhar semanas de moda pelo mundo há anos, já tive a oportunidade de assistir a desfiles de tirar o fôlego. Entre todas essas experiências, no entanto, nenhuma foi tão impactante quanto assistir a um desfile de alta-costura pela primeira vez. Lembro-me como se fosse hoje dos looks do estilista libanês Elie Saab entrando na passarela. A história que permeia esse universo de sonhos já tinha plantado em mim uma semente de grande expectativa e o que assisti superou a promessa. Vestidos de festa faziam parte do meu imaginário de menina sonhadora, e a altíssima qualidade das criações que desfilavam à minha frente me levaram a um universo paralelo. Foi um momento definitivo na minha “régua” de exigência do que considerava excelência na moda.

No mercado, o termo alta-costura define um grupo seleto de estilistas e marcas que recebem essa chancela de forma legal pelo ministério da indústria francesa, como um selo de altíssima qualidade, trabalho artesanal e sob medida. As semanas de alta-costura também marcam o início das temporadas de moda do ano e lançam as primeiras tendências que depois serão traduzidas para as semanas de moda do prêt-à-porter, que acontecem na sequência. Outro diferencial são os desfiles em si, sempre menores e com uma lista exclusiva de convidados, normalmente formada com os melhores clientes da marca e que podem consumir vestidos com valores de mais de 200 mil euros.

Assistir a um desfile assim teve um efeito imediato: em vez de me sentir escolhida e privilegiada ao estar presente em meio a poucos, só pensava que algo dessa magnitude deveria ser visto pelo mundo todo. Meu entendimento na época era de que me parecia um desperdício tão poucas pessoas ao redor do planeta poderem entrar em contato com tamanha beleza. Na minha cabeça, assim como as obras de arte que valem milhões são expostas em museus sem terem que ser necessariamente compradas, as criações que estavam à minha frente também deveriam ser admiradas por quem nunca pudesse financeiramente adquiri-las. Elas são um objeto de estudo, um portal para enxergarmos a arte na moda.

Tentei durante várias temporadas fazer com que essa mentalidade fosse compreendida e postava meus conteúdos feitos de maneira amadora em minhas mídias sociais, além de enviar para parceiras de trabalho incentivando o compartilhamento. Não surtia efeito. O pensamento da época era de que quem pode postar e compartilhar é quem foi convidado. Quem não está na lista e posta parece querer mostrar que estava presente. Raciocínio tortuoso, penso, para manter o acesso restrito ao belo. Então, passados alguns anos, na semana passada, o mundo da moda mudou. Com as restrições impostas pela pandemia, a semana de alta-costura não pôde ser feita fisicamente em Paris e suas marcas realizaram apresentações e desfiles digitais. Convites virtuais e senhas foram distribuídas a uma lista seleta de convidados – recebi o meu cheia de ansiedade e aí veio a surpresa. A mensagem clara era: compartilhem, vamos mostrar ao mundo o que é a alta-costura, sua história e suas criações. 

A Maison Dior, casa de imensa reputação no segmento, chamou um grande diretor de cinema romano, Matteo Garrone, para dirigir uma obra poética em filme, mostrando, em meio a um jardim encantado de ninfas e seres mitológicos, as criações Dior para o mundo todo. O vídeo podia ser baixado poucos minutos após sua apresentação e foi compartilhado por milhares de pessoas da forma como sonhei anos atrás. 

Os desfiles com presença física do público deixarão de existir? Certamente, não. Finalmente, temos um encontro harmônico de linguagens usando as plataformas disponíveis para que a informação seja oferecida a todos.

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