Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

O homem da casa

O tio-avô também já tinha vivido a falta de tempo e paciência dos jovens pais, e agora encontrava o propósito que faltava na aposentadoria

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 15h00

O menino perdeu o avô materno aos 5 e o paterno, aos 7. Os pais se separaram quando ele ainda era um bebê e a maior preocupação da jovem mãe era a falta da figura masculina em casa, no dia a dia. Ela queria muito que o filho tivesse essa convivência com as nuances que relacionamentos entre homens e mulheres nos ensinam. Mas a vida traz pequenos milagres de tempos em tempos e um deles foi o tio-avô, que em uma fase da vida já aposentado tinha o tempo que faltava para a mãe. 

Agitada e ansiosa pela vida que se descortinava à sua frente, ela precisava de ajuda urgente para cuidar do pequeno. E foi assim, em uma reunião de família, que estabeleceram a rede de apoio. Ele levaria e buscaria o menino na escola. Os dois já se conheciam de "vista", como o menino disse. A ajuda bem-vinda começou e, entre idas e vindas, a relação dos dois foi tomando forma. 

Leia Também

Olho mágico

Olho mágico

O tempo que sobrava na vida do tio-avô foi sendo invadido por aulas de natação assistidas com atenção, porta de colégio sob um olhar atento de como o pequeno saía: feliz? Triste? Com amigos? Solitário? O tempo no carro se transformou em tempo para conversas e confidências mútuas. Viraram amigos e cúmplices. Foram vistos furando fila em barraca do coco, no Leblon, no Rio, e também na contramão de uma rua no Jardim Europa, em São Paulo. 

Estavam sempre com a razão nesses momentos e tinham histórico de aventuras e fugas. O tio-avô também já tinha vivido a falta de tempo e paciência dos jovens pais, e agora encontrava o propósito que faltava na aposentadoria. Passeavam pelo shopping, olhavam as lojas de tênis preferidas do menino, iam ao cinema onde o tio-avô dormia e roncava. 

O menino tinha amigos que primeiro riram dele: quem anda com o tio-avô assim, de baixo para cima? Mas, a relação dos dois abraçava a todos e, assim, em pouco tempo, o tio-avô passou a guiar não só o menino, mas os tais amigos, agora adolescentes, rindo, conversando e fazendo algazarra no seu Gol 1000. Quando fez 18 anos, a mãe perguntou se ele não iria tirar carta. O filho assentiu, mas disse que preferia esperar mais um ano para poder se despedir dessa fase com calma. Foi nesse mesmo ano que o tão amado tio-avô morreu. A dor da perda que ele já havia conhecido voltou.

Aos 24 anos, o jovem resolveu que era hora de sair de casa, em meio a milhões de opções de aluguel em uma São Paulo lotada de apartamentos vagos, encontrou seu ninho na primeira foto que viu. Um pequeno apartamento de 35 metros quadrados, no Brooklin. “Por que esse?”, perguntava a mãe, querendo se debruçar sobre o volume de opções dos aplicativos de aluguel. “Porque é esse, é perfeito, eu sei." Foi assim que os pequenos milagres voltaram a acontecer. No dia da assinatura do contrato online o nome da proprietária apareceu. A filha do querido tio-avô.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.