Cortesia/Tati Oliva
Cortesia/Tati Oliva

O fim do tabu?

Ele já foi visto como sinal de desleixo, de velhice, de invisibilidade. Mas o cabelo grisalho dá um duplo twist carpado e, em 2020, vira sinal de liberdade na beleza

Renata Piza, Moda

07 de novembro de 2020 | 16h00

Valéria Rossatti poderia dividir sua história entre dois períodos: antes do grisalho, depois do grisalho. “Nunca imaginei que minha vida daria uma guinada dessas”, conta ela, que nos últimos quatro anos tomou uma decisão relativamente simples, embora (ainda) corajosa: parar de pintar o cabelo. “Eu não quis levantar nenhuma bandeira, nem sabia que existia o termo transição. Queria apenas deixar de ser escrava do salão de beleza.”

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Contrariando as previsões, virou modelo em julho de 2019, aos 44 anos, justamente por causa dos fios grisalhos. “Nos seis primeiros meses da transição foi difícil, ouvi muitas críticas, uma prima chegou a perguntar se eu estava sem dinheiro para pintar. Falavam também que homem não gosta de cabelo branco e que eu nunca mais namoraria”, diverte-se. Aconteceu o contrário. “Hoje, me sinto mais bonita, segura e leve do que quatro anos atrás. E as pessoas sentem isso e acabam se aproximando, beleza também vem de estar confortável consigo mesmo. Foi tudo muito espontâneo.”

Espontaneidade também tem sido o caminho trilhado desde 2019 por Tati Oliva, que assumiu os brancos sem pensar muito e, caso raro, impulsionada pelo marido, o empresário José Victor Oliva. “Ele sofria mais do que eu de ver a minha necessidade de ir ao cabeleireiro a cada 15 dias”, conta a sócia-diretora da Cross Networking. Em agosto, Tati assumiu a mudança, depois de fazer umas fotos com um amigo fotógrafo usando de brincadeira uma peruca branca. “Gostei da ideia, fui assumindo aos poucos e percebi que tinham mais fios grisalhos na parte da frente, então comecei a fazer umas mechas para não ter um contraste tão grande, até que ficasse mais harmônico.”

Resultado? “Foi libertador. Parei de me cobrar porque me sentia cobrada. E, se quiser voltar a pintar depois, voltarei. Nada precisa ser para sempre.” Além da liberdade de escolha, Tati também virou influenciadora de marcas de xampu e ajudou outras mulheres, inclusive as da família, a assumir os brancos. “Quando você assume o branco, passa a se enxergar diferente do que se enxergava. Muitas mulheres acabam mudando também as cores das roupas e da maquiagem ou aderindo a cortes mais modernos, assimétricos”, afirma a consultora de imagem Ilana Berenholc.

Embora o boom tenha sido ressaltado durante a quarentena, o sinal verde para os fios brancos está muito mais ligado à ideia atual de beleza natural, sem idade, sem prazo de validade, do que à impossibilidade de sair de casa. “O envelhecimento capilar começa no nascimento, quando o bebê vai perdendo folículos e os fios, ganhando espessura. Esse processo atinge o auge na adolescência e chega ao platô entre os 35 e 45 anos”, explica a dermatologista Maria Angela Muricy, especializada em terapia capilar. Concomitantemente a esse processo, os melanócitos, células que produzem melanina, o pigmento que dá cor aos fios, vão acabando. “Gastamos a reserva a cada ciclo de crescimento e queda”, acrescenta a médica. “Depois de dez ciclos, em geral, acontece a canície, a despigmentação capilar, salvo casos precoces.”

Sinal dos tempos, até grandes estrelas da TV resolveram embranquecer – Astrid Fontenelle e Gloria Pires, cujas mechas pretas eram uma assinatura de estilo, se renderam ao cabelo sem pigmentação. “Se você parar para pensar, antigamente, ai do homem que tingisse o cabelo e da mulher que não”, pontua Ilana. Na dúvida, é bom saber: a imagem que o branco passa não se resume à ideia de velhice. Segundo Ilana, ele “pode estar associado à naturalidade, à busca por uma vida mais sustentável, livre de químicos, à praticidade e à maturidade”.  No final do dia, afinal, não é a cor do cabelo que determina quem você é, mas, sim, a sua personalidade.

3 dicas para quem vai aderir ao grisalho

Hidratar os fios é condição sine qua non. “O cabelo perde água e lipídio e vai ficando mais seco. É preciso hidratá-lo e nutri-lo semanalmente”, diz Maria Angela Muricy.

O maior “risco” é o amarelamento. Aqui, entram xampus de coloração arroxeada, que ajudam a manter o tom prateado. Há desde opções importadas até as nacionais, como as de Natura e O Boticário.

Quem quer ser grisalha e manter um ar jovem pode combinar a cor com comprimentos mais longos –Valéria e Tati se enquadram aqui. Ou ir na contramão e aderir a bem curtos e geométricos.

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