Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

O ditador mês de Dezembro

Dezembro traz mandamentos e diretrizes para as metas que deveriam ter sido cumpridas, retornos que deveriam ter sido dados, mensagens que deveriam ter sido respondidas

Alice Ferraz, Moda

18 de dezembro de 2021 | 07h16

Dezembro olhava para ela sempre com desconfiança. Já no primeiro dia do mês, o próprio calendário, organizado milimetricamente para ser cumprido, mostrava-se cético: “não vai dar tempo, não vai dar tempo”, cochichava a folhinha ao pé do seu ouvido. E para provar a tese, o tempo que mora dentro de cada mês, e que se espichava em janeiro, encontrava tempo para festas em fevereiro se espremia em dezembro. Não vai dar tempo. 

E não dava mesmo. E se ela dormisse menos? Almoça-se na mesa do escritório? Incluísse reuniões no sábado e domingo? Não vai dar tempo.Meses são como pessoas, com características e personalidades únicas, repletos de intenções e expectativas podem nos tornar reféns de suas vontades, nos envolver em seu próprio destino. 

Janeiro tem cheiro de férias, sol, mar e, mesmo vivido na capital, longe da praia, entre prédios, traz a leveza dos começos, o espaço das ruas vazias, o cheiro da limpeza, do novo; vem sem cobranças, só sonhos. Já Dezembro traz mandamentos e diretrizes para as metas que deveriam ter sido cumpridas, retornos que deveriam ter sido dados, mensagens que deveriam ter sido respondidas em qualquer que seja a mídia inventada. 

Dezembro cobra, acumula, espreme e nunca esquece que temos de carregar no rosto o pacote alegria e felicidade constante, afinal é o mês das festas. Coloque seu sorriso logo pela manhã do dia 1 e siga com ele enquanto tenta esticar os minutos para concluir tarefas que se acumularam e agora gritam: “é sua última chance!”, porque e se não for feito em Dezembro, quando será? 

E agora, José?”, perguntaria Carlos Drummond de Andrade. A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. Ela, no entanto, diria que descobriu, depois de algumas dezenas de Dezembros vividos: “Se apruma José! Que depois do ditador Dezembro vem o suave e esperançoso Janeiro, vem a folia e as fortes emoções do carnaval em Fevereiro e as chuvas de março lavando a alma”. 

Deixa dezembro tentar te convencer que o mundo acaba nele, com ele. Deixa dizer, não discuta não, mas siga sabendo ali dentro que a vida é maior que qualquer Dezembro.

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