Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

O avião e o medo

Conhecer o mundo, as pessoas e suas vidas tão particulares em cada região a conectava com seu propósito, mas enfrentar o caminho, pelo ar, sempre foi sua maior fraqueza

Alice Ferraz, Moda

30 de outubro de 2021 | 07h00

Às cinco da manhã, já estava com a mala pronta a caminho do aeroporto. É bem verdade que não tinha dormido nada, nadinha mesmo, e passou a semana tentando esquecer que entraria em um avião naquele dia. 

O avião, seu aliado e maior tormento. Conhecer o mundo, as pessoas e suas vidas tão particulares em cada região a conectava com seu propósito, mas enfrentar o caminho, pelo ar, sempre foi sua maior fraqueza. 

A situação toda se tornava mais constrangedora tendo sido o pai um piloto reconhecido na 2.ª Guerra Mundial e um apaixonado por aviação. Conviver com a própria covardia tendo como exemplo um pai herói, colocava mais “caldo” nas horas gastas em análise para tentar resolver o assunto. 

Nesse dia, o avião partiria às 8 da manhã, excelente horário segundo suas “pesquisas”: pilotos despertos? Menor tráfico aéreo? Aeromoças mais prestativas em caso de pânico? Tinha uma lista de checagem a cada viagem. O maior vilão, no entanto, não era algo controlado: era o mau tempo. 

A chuva torrencial dos dias anteriores já lhe causava taquicardia. “Está chovendo tanto esses dias, quinta-feira deve parar”, era o assunto que puxava aleatoriamente na semana. Não parou. A chuva noturna de quarta-feira anunciava a imagem da próxima manhã e, na madrugada insone, ela usou todos os métodos para se certificar de que entraria no avião no horário previsto. 

Lembrar nomes que admirava e que como ela tinham o mesmo pânico, mas seguiram suas carreiras e conseguiram administrar o terror a acalmava, então passou as horas pré-embarque em companhia de Oscar Niemeyer, um dos fundadores da arquitetura moderna, que deixou de assistir a abertura de uma obra em Londres pelo seu conhecido medo de voar. 

O gênio, escritor e poeta Ariano Suassuna, que não assumia seu medo em público, afinal, “um sertanejo não tem medo de nada”, dizia, também era constante em suas tentativas de solucionar a questão. Para ele, assim como para ela, assumir o medo era tão grave como senti-lo. 

Às 7 da manhã lá estava ela no portão de embarque: mãos suando, pernas tremendo, chuva caindo sobre a potente máquina. Como seria bom e encorajador, para uma leitura de sábado, se ela tivesse entrado e seguido para a solar Paraíba e suas possíveis descobertas. Só que, dessa vez, ela não entrou. 

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