Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

O antifrágil

Quero me tornar e estar ao lado dos antifrágeis, ser e ter bons parceiros nesse tempo de jornada através da pandemia e recessão econômica

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2020 | 03h00

“Você sabe, a pandemia tem deixado as pessoas muito estranhas.” Tenho escutado frases assim diariamente como explicação para atitudes impensadas, agressivas, às vezes sem sentido. A quarentena nos faz caminhar com grande esforço até uma nova vida muito diferente. Enxergamos que o “novo normal” não tem nada de normal, se pensarmos que normal é algo regular, familiar, usual. Lidar com o novo modus operandi, ou seja, o novo modo de agir na vida diária, é exaustivo e a rotina, mesmo quando monótona, deveria ser bem-vinda para trazer certo conforto.

Verdade seja dita, conforto emocional e físico é exatamente o que não teremos por enquanto. Novas regras profissionais, novos arranjos pessoais, novas moradas nas cidades ou fora delas. Uma pressão externa e interna que nos exige a certeza de que agora estamos no caminho seguro. Em um esforço para entender a dor, minha e do outro, cheguei a conclusão de que a incerteza constante tem gerado um estresse que na maior parte das pessoas prejudica a tomada de decisão e a argumentação.

Conversas profissionais me trazem pontos em comum. A velocidade com que fomos atingidos pela pandemia gerou uma ansiedade e uma necessidade de busca por um porto seguro que é inexistente. “Tenho medo de ser mandada embora e preciso me sentir segura”; “Sinto-me dando passos para trás por ganhar menos dinheiro nos últimos meses e preciso ter certeza que tudo vai voltar ao patamar que era”; “Estou tendo que ampliar meu olhar para áreas em que eu não atuava e sinto-me sempre insegura e fazendo algo errado.”

Como responder a essas questões? Você não será mandada embora, fique tranquila, está tudo bem. Seus passos são para frente, mas seu dinheiro sim andou para trás? Sim, você está fazendo errado, mas pode ser que se transforme e um dia faça o certo. Seriam essas respostas que encorajariam? Acredito que não. Mas seriam reais e ditas para contribuir nessa mudança, exigindo uma maturidade e alta dose de resiliência de quem as ouvisse.

O mundo anda mesmo incerto. Os economistas preveem uma recessão mundial em torno de 7% e, no Brasil, de 9%, apesar de esses números estarem sempre sendo ajustados. Seu emprego e sua empresa não estão seguros sendo você funcionário, colaborador ou empreendedor e precisamos alterar rota, comportamento e atitude para atuarmos na nova realidade a que estamos expostos. O momento pede um olhar profundo e decisões que foram adiadas, agora, se tornaram urgentes. A adaptação consciente é necessária para avançarmos para a próxima etapa do jogo.

Vem-me à cabeça, com admiração, Oliver Sacks (1913-2015), escritor e neurologista americano que, aos 80 anos, descobriu um câncer incurável. Sem se sentir acuado, revoltado ou em negação com a vida que tinha, focou no trabalho que amava, na sua relação com leitores e amigos. “Quero dedicar esse tempo para atingir novos patamares de compreensão e descortino, não há tempo para o que não é essencial”, escreveu com profunda sabedoria.

Sacks foi talvez um grande exemplo do que hoje se define como antifragilidade, termo criado por outro escritor, o libanês radicado nos Estados Unidos Nassim Nicholas Taleb. O conceito de antifrágil, inclusive, dá nome ao livro mais recente do autor. A obra está em perfeita sinergia com o mundo volátil, complexo e incerto da pandemia.

“A antifragilidade é o exato oposto da fragilidade. Estando além da resiliência ou da robustez. O resiliente resiste aos choques e ao tempo e permanece o mesmo, o antifrágil fica melhor. Não se protege de ataques ou mudanças bruscas. Aceita cada uma delas e encara o aleatório como fator benéfico para o aperfeiçoamento e a evolução”, reflete Taleb.

Quero, então, me tornar e estar ao lado dos antifrágeis, ser e ter bons parceiros nesse tempo de jornada através da pandemia e recessão econômica. Não abandonar, não sucumbir e encarar a vida até com certa leveza e a graça que ela possui. Quero manter a esperança e exibir positividade ao mover-me. A vida vai ser melhor em breve e estar preparada para esse momento é minha meta.

Tudo o que sabemos sobre:
moda

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.