Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

No sétimo dia

Há dez dias estava assim, em delírio, como se estivesse finalmente libertada de um carrasco para poder traçar planos para uma nova vida

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2021 | 15h00

Era o segundo dia do ano. A sensação de liberdade e leveza a preenchia de uma forma contrária ao que a sua racionalidade enxergava. A pandemia estava em seu ápice e tinha absoluta consciência da ferocidade da doença. A economia não dava sinais de melhora em sua área e o ano seria desafiador para se dizer o mínimo. Mesmo assim, a sensação continuava ali. Há dez dias estava assim, em delírio, como se estivesse finalmente libertada de um carrasco para poder traçar planos para uma nova vida. 

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A sensação se transformou em emoção quando embarcou para sua merecida, acreditava, viagem de férias. Seu marido, organizado e precavido, comprara tudo em agosto, prevendo a alta das passagens e destinos, para um fim de ano aonde tínhamos urgência de escapar. Tomaram todas as medidas de precaução, as máscaras que usavam estavam entre as mais bem avaliadas pelas publicações especializadas e o hotel escolhido tinha só dez bangalôs com grande distanciamento entre eles para que hóspedes não precisassem ter contato. Álcool gel em mãos, pouca bagagem (vestir o quê? E para quem?) e a liberdade bateu literalmente asas rumo ao estado mais alegre do Brasil

O slogan “Sorria, você está na Bahia” havia virado refrão em sua cabeça há meses e, claro, antes mesmo de pousar, sorria escancaradamente e até despudoradamente para o momento. Ao chegar, os sonhos se transformaram em realidade. O bangalô era uma perfeita pequena casa de frente para o mar quente e sem ondas, sem perigo algum. Areia branca e fina. “A praia é feita para você andar”, disse o marido. Teria tempo para escrever e ler, suas grandes paixões. Teria tempo – palavra mais usada por ela nesse ano em que o seu tempo tinha sido 100% dedicado a manter seu negócio. No ano que passou, seu tempo não tinha sido seu. Sem romances, viagens, nem sonhos, ela fez com que o tempo fosse minuciosamente planejado para resistir à crise.

Foi depois de um delicioso jantar ao ar livre na segunda noite de viagem que tudo aconteceu. Com a brisa morna da Bahia e regado a Chardonnay, seu vinho branco predileto, um calafrio, que ela pressentiu como sinal de bons presságios, veio e ficou. À noite, febre, enjoo e um pesadelo de idas e vindas ininterruptas ao banheiro da linda casinha que agora parecia enorme com um corredor distante e mal assombrado. Seguiu-se o segundo dia, em que a febre aumentara e o médico, acionado por zoom, deu seu veredicto: intoxicação alimentar. Sabendo que estavam há cinco horas de carro de um aeroporto perguntou, “você aguenta ficar? Se sim, vamos tratar você aí”. E ficou. 

Mais três dias se passaram, aonde dia e noite se confundiram no emaranhado de ondas de calor, idas e vindas, sonos picados por pesadelos, banhos, soro caseiro, água de coco e Gatorade. E a tal liberdade escorria dia após dia pelos dedos. Olhando pela varanda, o céu azul, o mar sem ondas, o tempo ali disponível e inutilizado. No sexto dia, acordou se sentindo viva, mas frágil, e com mais uma semana de antibiótico por vir ­– além de zero álcool e frutos do mar. No máximo, poderia comer purê de batatas sem leite ou manteiga e um grelhado. No sétimo dia, acordou. Foi com esforço até a praia e tomou o banho de mar morno sem ondas, pegou o avião e, em São Paulo, chegou em casa. Desmarcou a primeira reunião, deitou em sua chaise longue e abriu o primeiro romance. 

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