Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Ninguém vai sofrer sozinho

Com Marília, expulsamos segredos que são dela e são nossos também

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2021 | 07h00

“Mas uma mulher pode contar ao mundo que tomou uma bebedeira? Que é ou foi amante? Que traiu sem culpa?” Se ela tivesse feito a pergunta, a resposta seria não. Mas ela, felizmente, não fez. Cantou a verdade em todas as suas notas. Cantou as dores, os amores, o lado B, assumido ou não, de todas nós – e as atitudes que julgamos em outras também. “Como pode se humilhar assim? Se colocar nessa situação?” Tudo está absolutamente escancarado em músicas em primeira pessoa. Fomos absolvidas por suas canções. “Faltou coragem para dizer que não bebi, liguei, caí no seu colchão.” Ela toma a iniciativa, faz sexo sabendo que não será assumida, e tem mais: em “Infiel, eu quero ver você morar num motel”, ela encara o marido traidor, mandando-o assumir as consequências de seus atos. Não paternaliza as relações entre homens e mulheres, todos responsabilizados, cantados em letras fortes e ritmos envolventes. Com Marília, expulsamos segredos que são dela e são nossos também. 

Ela vestiu um Brasil machista nos tons de um novo feminismo, assumindo o inassumível, sem fazer apologia de sua posição. Enquanto cresci, sem entender por que Chico Buarque cantava a nossa falta de voz e o que não queríamos ser em Mulheres de Atenas, “que vivem para seus maridos, tecem bordados, se ajoelham, sofrem e imploram”, Marília ajudou milhões de mulheres a crescerem autênticas, desvendando em cada letra quem somos. Seu trabalho, nesse sentido, já teria tornado sua contribuição única. 

Marília, então, fez mais: uniu as mulheres que, criadas com sentimentos atávicos de escassez e, portanto, extrema concorrência com relação à conquista do homem, penalizam sempre a “outra” pela perda ou traição, isentando o masculino considerado um fraco à mercê de nossas estratégias de sedução. 

A mulher que julga a outra e infantiliza o masculino não faz parte da narrativa dela. Marília mostra afinidade entre iguais, entre mulheres cúmplices, e chega a desafiar nosso entendimento sobre amizade feminina quando absolve a amiga que a trai com o próprio namorado. 

Marília compreende o feminino sem o verniz que a sociedade nos impõe para nos tornarmos, como diz o ditado, “mulher de César”, que “não tem que só ser, mas parecer honesta”. Marília não precisa nos santificar para nos amar e respeitar. Marília, “você virou saudades” para milhões de brasileiras.

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