Ilustração: Paula Coelho
Ilustração: Paula Coelho

Nilton Bonder: Vive la conditionnalité!

Só existem dois amores incondicionais, um real e outro intuitivo. E desses dois amores incondicionais projetamos os nossos amores... e são todos condicionais

Nilton Bonder, Moda

08 de maio de 2022 | 06h00

Não é fácil entender amores porque parece que eles emanam das emoções e que nada tem a ver com o intelecto. Mas este é um mal-entendido comum e com consequências. O amor é uma profunda conversa entre o coração e a mente. Prova disso é que em geral o amor não é incondicional como as emoções. 

Só existem dois amores incondicionais, um real e outro intuitivo. O real é o amor incondicional que sentimos por nós mesmos. Mesmo a tal baixa estima esconde o desencanto de uma enorme autoestima. O outro amor é a expectativa de que Deus ou a vida nos aprecie gratuitamente e seja compassivo ou compassiva como num pacto existencial. E desses dois amores incondicionais projetamos os nossos amores... e são todos condicionais.

Porém, um amor condicionado não significa uma infidelidade, muito pelo contrário.

Nas relações mais profundas ou no casamento, essa condicionalidade é explícita, a ponto de demandar contratos e a saída do divórcio. Claro, buscamos que sejam condicionados aos elementos mais sublimes possíveis, tal como o mútuo cuidado e compromisso de crescimento. Mesmo assim é condicional.

O amor materno e o amor à mãe são os amores mais próximos do incondicional. Ambos emanam do amor a si mesmo, o maternal vendo nos filhos sua extensão, e os filhos percebendo que sua mãe é a matriz da possibilidade de se sentir o amor por si. E, apesar da grandeza desses amores, eles produzem expectativas: uma de que haja a percepção de extensão de sua própria vida e outra de que esse amor não tente se interpor ao amor por si mesmo.

Aceitar e acolher essa condicionalidade é muito saudável para mães e filhos e pode desfazer profundas feridas de desencontros que nascem da imposição de incondicionalidade.

Neste dia em que estamos embevecidos pela grandeza desse amor, uma homenagem aos que por desavenças ou desarmonias estão alijados de celebrá-lo. Que possam sair da mágoa de suas expectativas de incondicionalidade e possa a mãe, humana que é, resgatar seus filhos, humanos que são, e vice-versa. Para tal, se faz necessário um abraço largo o suficiente para  abarcar mãe, filho e humano num só enlace. 

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