Lukas Bieri/Pixabay
Lukas Bieri/Pixabay

Nilton Bonder: Um pássaro na mão

A força do ditado está em suas duas imagens: pássaro e mão. O pássaro, alado, alude ao sonho e ao intangível; já a mão evoca posse e concretude

Nilton Bonder, Moda

19 de junho de 2022 | 07h30

O ditado “melhor um pássaro na mão do que dois voando” busca ensinar que é melhor contar com o que está garantido do que almejar algo para além do alcance e arriscar perder tudo. Essa prudência, no entanto, esconde armadilhas acerca do conceito de “ter”.

A força do ditado está em suas duas imagens: pássaro e mão. O pássaro, alado, alude ao sonho e ao intangível; já a mão evoca posse e concretude. Esses são os elementos do sustento, formado da ânsia e espera (o pássaro) e do suster, o segurar, raiz etimológica da palavra “sustento’’, relativo à “mão”. O sustento, no entanto, não é uma mercadoria, algo material passível de ser arrestado e agarrado pela mão. O sustento é um recipiente, ou seja, é uma medida, uma tensão entre o disponível e o necessário. 

No condomínio onde moro, a água provém de uma fonte local que por décadas supriu todos. Num dado verão começou a faltar. Preocupados, fizemos uma reunião e, enquanto aguardávamos quórum e os vizinhos comentavam a situação, acabaram revelando que, por temor de escassez, construíram cisternas, uma maior que a outra.

Não demorou para entendermos o que havia ocorrido. A garantia significa curto prazo, mas, pelo fato de ser efêmero o “ter”, o amanhã chega e expõe a outra ponta dessa economia. Pois é a própria condição humana, transitória e temporária, que nos permite apenas “ter” provisoriamente. Não é uma limitação ou impermanência dos objetos ou das coisas, mas do possuidor, daquele que não tem uso perene, mas apenas circunstancial dos recursos.  

Difícil convencer as pessoas disso, já que a sobrevivência parece demandar o imediato. O sustento, porém, não é o pássaro, mas o pássaro voando. Se você precisa de um, dois ou nenhum pássaro na mão, não é trivial. Fato é que “ter” apartado do sustento é bem mais grave do que “não ter” no contexto do sustento.

O ditado tem lá seu valor, mas não reconhece que o risco está em todas as escolhas. Ao ter-se na mão um pássaro desnecessário e que melhor seria se estivesse voando, também se arrisca a tudo perder. E cá para nós, na atual conjuntura, fica até difícil explicar ao neto que raios faz esse pássaro na sua mão!

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