Getty Images / Ilustração: Leonardo Albertino
Getty Images / Ilustração: Leonardo Albertino

Nilton Bonder: À Luz da lua

A disrupção de hábitos e de rotinas desta crise colocou o ser humano diante do que é mais básico, mais estrutural em sua vida. E temos aqui uma oportunidade única de reavaliar e aperfeiçoar à luz dessa nova luminosidade

Nilton Bonder, Moda

30 de maio de 2020 | 16h00

O mundo de hoje tem uma luminosidade diferente. Desalumiado, em contornos sombrios, o mundo parece mais aclarado pela luminescência lunar do que a outrora cintilância solar. Diz um antigo mito que a função da lua é iluminar a noite.

Se essa for a sua incumbência, se poderia questionar então sua eficiência, visto que tarefas tais, como discernir ou ler, o sol as executa com maior competência. Os sábios, no entanto, aclaram que o sentido de a lua iluminar a noite não significa que ilumine à noite, mas a própria noite! Sua função é mostrar o escuro, a beleza do escuro.

Tempos de perceber que aquilo que não é visto ou não é escutado pode melhor refletir o que é real. Na intimidade, por exemplo, a demanda é por luzes que se apaguem e silêncios que se estabeleçam. Bem diferente das luzes 24/7 das quais nos flagramos saudosos.

A disrupção de hábitos e de rotinas desta crise colocou o ser humano diante do que é mais básico, mais estrutural em sua vida. E temos aqui uma oportunidade única de reavaliar e aperfeiçoar à luz dessa nova luminosidade.

Suas características são femininas. Seus dons são subjetivos, logrando feitos incríveis tal como, na distância, aproximar; ou, na penumbra, ampliar visão, visão interna (insight).

Talvez não seja por mero acaso que as pupilas se dilatem em outras situações para além da diminuição de luminosidade. Elas o fazem quando algo as interessa ou as seduz, ou em meio a um pensamento profundo ou diante de uma revelação surpreendente. E o fazem também no momento derradeiro e místico de passagem deste mundo. Quão misterioso será aquilo que veem para além da escuridão feminina e maternal da finitude?

Quem dera essa nova luminosidade do mundo nos inspirasse ao final deste turbilhão para que não retornemos automaticamente à realidade ofuscante de antes.

Essa nova luminosidade à luz da lua pode a tudo e até a moda impactar, fazendo com que façamos escolhas por elegâncias essenciais em detrimento de glamoures superficiais. Quem sabe se possa, pessoal e coletivamente, proteger e apreciar a vida, como sugerem os Salmos, “como a pupila dos teus olhos”.

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