Na avenida

Na avenida

Beatriz Milhazes ocupa o Masp e o Itaú Cultural, ambos na Paulista, com a maior exposição solo dedicada à sua obra

Renata Piza, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2021 | 04h00

Trinta anos de arte, 170 trabalhos, telas, colagens, acrílicas, gravuras, esculturas, dois museus, uma avenida de quase três quilômetros de comprimento da Consolação ao Paraíso. Números que dão uma dimensão da grandiosidade de Beatriz Milhazes, a artista brasileira que saiu do Parque Lage, no Rio de Janeiro, e transbordou mundo afora com suas telas cheias de cores e poesia, abertas a diferentes interpretações de quem pousa os olhos sobre elas. 

Beatriz Milhazes: Avenida Paulista (em cartaz até 30 de maio de 2021) coloca uma espécie de câmera 360 graus na produção cultural da artista entre 1990 e 2020, incluindo obras inéditas, como a que carrega o título da exposição e retrata uma Paulista com traços ora modernistas, ora orgânicos, uma beleza caótica que encontra o equilíbrio. 

“Desenvolvi o sketch tentando aproximar o meu imaginário, com liberdade poética, às referências importantes na minha relação com São Paulo, sua história modernista e concreta; a beleza curiosa desta avenida que identifiquei com a cor rosa-luminoso”, explica a carioca, cujos trabalhos passeiam do barroco ao modernismo, do popular ao erudito. 

“É uma oportunidade única para conhecer e compreender o trabalho dessa que é uma das principais artistas brasileiras vivas, com uma obra já amplamente consolidada no panorama internacional”, destaca Adriano Pedrosa, curador e diretor artístico do Masp, onde as pinturas e esculturas são o destaque. 

Por lá, o público pode observar telas de grandes dimensões, peças inéditas e Gamboa, escultura que pende do teto e fará parte das apresentações da companhia de dança de Márcia Milhazes, irmã da artista, neste ano. 

Já no Itaú Cultural, a curadoria de Ivo Mesquita mergulhou na obra sobre papel, relacionando serigrafias, acrílicas e colagens com a pintura. “Avenida Paulista é um convite para um passeio na avenida que é um emblema nacional e para um encontro reflexivo e sensorial sobre a minha obra”, diz Milhazes.

Cruzando os dois locais, ficam visíveis as transformações do trabalho da artista desde suas primeiras gravuras com a Durham Press e os trabalhos para espetáculos de dança e até produções bastante recentes. E também a percepção de como na produção de Beatriz uma ideia se desdobra em outra, uma pintura pode ser reestruturada como uma gravura diversa para, a partir dali, surgirem novas colagens. “Por um lado, existe racionalidade, matemática, precisão, determinação, mas ela também se arrisca”, analisa Mesquita sobre linguagem, estilo e imaginários próprios de Milhazes. “O trabalho da Bia não é o que você vê, mas o que está por trás.”

História, determinação e convicção de que a arte não muda o mundo, mas muda as pessoas, e as pessoas podem mudar o mundo, nas palavras da artista. “É muito estimulante e desafiador olhar para a sua história em retrospecto. A força da arte contemporânea brasileira é resultado do importante frescor criativo da nossa história. Me sinto muito herdeira desta tradição e creio que inovei no pensamento da arte abstrata, o que me colocou no mundo internacional das artes”, analisa Beatriz, que ainda tem muita tinta pela frente. “Minha eterna ambição é manter a qualidade do que faço, minha relação genuína com meu processo criativo e a busca contínua sobre a transformação através da arte, seja nos próximos 30 minutos, 30 dias ou 30 anos.”

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