Mulher brasileira

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A história de uma nordestina que encontrou a independência em São Paulo, como uma fisioterapeuta de sucesso

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 13h38

Ela saiu do Nordeste há 15 anos com um sonho, pouco dinheiro e muita energia para enfrentar São Paulo, a cidade das oportunidades. Cada dia era uma aventura e o tamanho da cidade não era o maior desafio, mas sim a velocidade com que as coisas ocorrem na metrópole. A frequência parecia ser outra, uma vibração que a deixou primeiro atordoada, depois ansiosa e sempre, durante anos, exausta. Os dias passavam mais rápido do que em sua cidade, em Alagoas. Dizia por telefone à família que o tempo em São Paulo era “mais rápido, será que existe isso?”. Todo ano voltava para sua terra no Natal. No primeiro ano, precisou dormir uma semana antes de conseguir “viver a vida que sempre viveu”. Teve crises de choro, pensou em nunca mais “pisar em São Paulo” e teve colo da mãe, irmãs e amigas que a olhavam com espanto pela “ousadia” de ir tão longe. Voltou e a cada ano um pedaço seu também se estabelecia em São Paulo. Aos poucos entendeu que não se sentia mais “em casa” nem lá, nem cá. Foi “acusada” pelos amigos de ter se transformado em paulista. Não tinha e sabia disso.

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Fez todos os cursos de fisioterapia a que teve acesso e se transformou em uma expert no assunto. Conseguiu uma colocação na melhor clínica de um ótimo bairro da cidade e rapidamente entendeu o modus operandi local. As clientes da clínica se encantavam com sua educação, protocolo e até pelo seu modo de pronunciar as palavras, “tão gostoso de ouvir”, diziam. Transformou-se na massagista mais disputada e, com uma carteira fiel de clientes, em sua própria chefe. A partir daí comprou um carro e alugou um apartamento nos Jardins, “o bairro dos sonhos”, dizia. Passava o dia nos casarões do Jardim Europa e nos melhores edifícios da região. Era recebida como amiga. Discreta e atenciosa, tinha técnica e uma mão excelentes. “Se você morasse em Paris teria ganhado o prêmio de melhor mão da França, dedicado aos grandes profissionais do país”, disse uma de suas clientes mais frequentes.

Com o tempo percebeu que algo profundo havia mudado dentro dela. Era uma mulher independente, livre e com opinião, que poderia viver em qualquer grande cidade do mundo. Assim se enxergava no espelho. Notou que, ao mesmo tempo em que o mundo se abriu profissional e intelectualmente para ela, as oportunidades de um relacionamento amoroso se fecharam. Ela não era mais a moça ingênua e frágil que tinha deixado o Nordeste e que os homens que a conhecia gostavam de acreditar que cuidavam e protegiam. Sua força e independência causavam admiração, atração até, mas também medo e desconfiança como em seu pai, irmãos e amigos.

Presa entre um modelo de mulher que foi criada para ser e outro em quem se tornou, entrou em depressão. Leu livros de autoajuda, fez cursos de conhecimento pessoal, cabala, meditação e até moda. Resolveu desmanchar o último namoro que não daria mesmo em nada e ficar sozinha para entender quem era. Depois de uma longa temporada, olhando para dentro, deu uma chance às novas tecnologias e abriu uma conta em um aplicativo de encontros virtuais. Conheceu um paulista, educado, carinhoso, fotógrafo. Ele se encantou pela essência feminina, charme, curvas e “leve sotaque” do Nordeste brasileiro. Ele entendeu e respeitou a força, a determinação e a independência da mulher cosmopolita. Hoje, estão juntos.

ALICE FERRAZ É ESPECIALISTA EM MARKETING DE INFLUÊNCIA E ESCRITORA, AUTORA DE ‘MODA À BRASILEIRA

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