Montagem/Estadão
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Moda e Verdade

Vestir é sempre um desafio. Porém, vestir um freguês tão sensível como a Verdade demanda alta-costura

Nilton Bonder*, Moda

24 de outubro de 2021 | 05h00

Conta-se que a Verdade andava nua pela rua. As pessoas fugiam dela, a evitavam a todo custo. Certo dia encontrou com o Conto, a quem todos amavam, e se queixou: “Ninguém gosta de mim porque sou muito velha!”. “Eu também sou velho” – disse o Conto. “E, no entanto, todos me amam. Seu problema é que andas nua por aí. Vou te emprestar lindas roupas e verás como todos gostarão de você!” E assim nasceu a parábola.

Vestir é sempre um desafio. Porém, vestir um freguês tão sensível como a Verdade demanda alta-costura. A elegância pode comprometer aspectos delicados de sua simplicidade. Formal ou pomposo, pode apresentá-la como absoluta, sem sua graça relativa. Um decote impreciso pode fazer-se inclinação; bainha longa, uma versão. Cores fortes, aproximá-la ao cinismo; escuras, ao pessimismo. Adornos em excesso, parecer propaganda; um véu a mais, aparentar aproximação. 

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Já a Mentira vinha andando toda disfarçada pela rua. As pessoas olhavam curiosas, mas desconfiavam dela. Certo dia encontrou a Maledicência, com quem todos flertavam e se lamentou:  “Ninguém me escuta porque sou sinistra!”. “Eu também sou sinistra” – disse a Maledicência. “E, no entanto, todos querem ouvir o que tenho a dizer. Seu problema é que andas disfarçada demais. Vamos tirar algumas das máscaras e verás que, com visual de lisura, todos irão flertar contigo e você vai se espalhar!” E assim nasceu a Fake News. 

Paramentar a inverdade também não é para qualquer alfaiate. Um bom caimento, para parecer uma tese; o design correto, um mito. Fibras sintéticas para com argumentos não dobrar; um transpassado para desorientar. Seda para escorregar, e muito nos detalhes se fixar. Perfume com ares de conspiração; pin ao estilo convicção; transparência, não!  

Há que a Verdade se cuidar! Se pura e nua ela pode a consciência paralisar, então que a inteligência e a sensibilidade lhe venham ornar. Mas que não se adultere sua lindeza, feito a Natureza já está. Pois, elo outro não há, capaz de a Terra aos Céus juntar!

*Nilton Bonder é rabino, autor de 23 livros traduzidos em 18 idiomas, dois deles adaptados ao teatro e cinema.  Fundador do Centro Cultural Midrash no RJ, dramaturgo de Cura, próximo trabalho da Cia. de Dança Deborah Colker, e da peça Eros, com direção de Marcio Abreu.

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