Paula Coelho
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Moda e Modo

Quando a inteligência tem registro de si, em geral não são inteligências, mas pensamentos afetados por emoções

Nilton Bonder*, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2021 | 07h00

Todas as perguntas se incluem em apenas duas: “Por quê?” e “Como?”. Os “por quês” vêm da mente, da inteligência; os “comos” vêm do coração, das emoções. Os “por quês” querem estabelecer causa e consequência; os “comos” querem personalizar. Os “por quês” gostam de se espraiar temporalmente por “quandos”, espacialmente por “ondes” e quantitativamente por “quantos”. Já os “comos” têm preferências por “quais” e “quems”, pelo modo.

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A diferença entre essas perguntas é que uma é objetiva e a outra, subjetiva. As perguntas da inteligência querem saber sobre um objeto e são isentas do senso de si. Elas querem saber sobre algo e passam ao largo da pessoa. Quando a inteligência tem registro de si, em geral não são inteligências, mas pensamentos afetados por emoções. Se você perguntar a alguém: “Por que está se sentindo assim?”. Invocará a inteligência e dessa forma passará ao largo da outra pessoa. Nas relações humanas, esse é um belo estopim para os desentendimentos. Por isso, a pergunta relacional que convencionamos é: “Como você está?”. 

Tal pergunta pode ser usada apenas como uma formalidade sem interesse algum. Um amigo costumava ironizar perguntando e já imediatamente respondendo: “Como você está? Bem!”. No entanto, essa pergunta é fundamental para nossa saúde mental. Ela designa interesse em conectar, em oferecer escuta e até, quem sabe, entendimento. Nesses tempos difíceis de distância e medo, essa pergunta pode fazer toda a diferença com o potencial de alterar ânimos e destinos. 

O modo tem essa grandeza. Quando olhamos para uma cultura, o que mais nos interessa é o modo. Quando visitamos a memória do passado, o que mais nos impacta é o modo, o modo da fala, do cabelo, da rua, dos objetos, do carro ou da roupa, e são esses aspectos que nos emocionam. A lembrança do outro está também no modo que olhou, que falou ou que agiu. 

O modo é tudo na perspectiva humana! Assim é com a moda que revela o lado humano e suas emoções, razão pela qual essa palavra deriva do “modo” – do “como?” – que tanto engaja e aproxima. O modo é a moldura maior pela qual comunicamos realidades, sejam elas sobre o mundo, sejam sobre nossa alma! Mode matters!

*Nilton Bonder é rabino, autor de 23 livros traduzidos em 18 idiomas, dois deles adaptados ao teatro e cinema.  Fundador do Centro Cultural Midrash no RJ, dramaturgo de Cura, próximo trabalho da Cia. de Dança Deborah Colker, e da peça Eros, com direção de Marcio Abreu.

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