Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Mas é carnaval

Parece clichê dizer que só valorizamos o que nos falta, mas é a mais pura verdade. O carnaval era uma certeza na vida de muitos e na minha também

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2021 | 15h00

Quando a notícia saiu à boca pequena em meados do ano passado, foliões se revoltaram. “Como assim, disseram que vão cancelar o carnaval? Mas não é uma festa religiosa?” Indignação. “Mas, até o carnaval?”

Confesso que, na época, não me senti assim. Pensei bem quietinha (não ousaria discutir com carnavalescos apaixonados): tem que cancelar mesmo, claro! Pandemia! Mas aí o ano passou, sem viagens, sem semanas de moda, sem festas, aniversários, reuniões, sem Natal como eu conhecia até então e um réveillon assim… insosso. Esqueci o carnaval e, quando achei que nem pensava mais nele, pimba! Era fevereiro e a minha primeira reação de indignação por quem sofreu com a possível falta do carnaval se transformou em tristeza. 

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Ritual

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Parece clichê dizer que só valorizamos o que nos falta, mas é a mais pura verdade. O carnaval era uma certeza na vida de muitos e na minha também. Nunca fui a “líder” do carnaval, mas, como todo brasileiro, fui criada como se fosse um feriado mundial. Fui a inúmeros bailes quando criança: fantasiei-me de odalisca, princesa, branca de neve e até de feijão, aos 7 anos (quem se fantasia de feijão?). Só entendi que carnaval não era festa mundial na adolescência, quando passei um fevereiro fora do Brasil e “descobri”, indignada, que não era feriado, o carnaval é nosso. Ele até existe em outras datas, em outros lugares, mas como o nosso? Não há. 

Já participei de bloquinhos, já desfilei em Escola de Samba do Rio, já passei madrugadas vendo desfiles deslumbrantes. Pulando ou não, todo brasileiro tem no sangue o carnaval. Tudo pode dar errado, mas no carnaval a gente “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Momento de ser feliz e, às vezes, até de se esforçar para ser, porque ser triste até a Quarta-Feira de Cinzas pega até mal. E quando a gente se esforça, não é que acaba conseguindo? Já levei fora de namorado dois dias antes do carnaval, mas quando chegou o sábado lá estava eu fantasiada e pronta para redescobrir a vida. Fomos ensinados que no carnaval somos felizes e isso nos impregnou. 

E, assim, quando finalmente me dei conta que não teria carnaval em 2021, chorei. Pelos carnavais que não pulei, pela brasilidade que às vezes esqueci que está em cada poro. Chorei pela falta que vai fazer lembrar do carnaval que não aconteceu. E sei que mesmo com toda restrição, muita gente vai fazer festa, mas isso não quer dizer carnaval de verdade. Não o nosso. Aglomerar, fazer balada é uma coisa. Carnaval é outra. Carnaval tem festa e tem poesia, carnaval traz um espírito de liberdade que nenhuma festa pode imitar. “O que acontece no carnaval, fica no carnaval” é frase cheia de uma verdade bem brasileira. Aqui fica, então, um coração apertado cheio de saudades de um amor recém-descoberto.

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