Marcos Palmeira: filho do pantanal

Trinta anos após atuar na primeira versão da novela, Marcos Palmeira volta à região brasileira para viver um dos protagonistas do remake, mostrando também fora das telas seu importante trabalho na preservação do meio ambiente

Alice Ferraz, Moda

19 de junho de 2022 | 07h00

É muito triste enxergar que exploramos, exploramos e não devolvemos nada à natureza”, diz Marcos Palmeira diretamente do Pantanal, região onde tem passado a maior parte do tempo desde o início das gravações da atual novela das nove da Globo. O remake tem trazido para o sofá diariamente não apenas os noveleiros de plantão, mas uma grande parte dos brasileiros que se diziam avessos ao programa.

Palmeira voltou ao Pantanal 30 anos depois de sua experiência na primeira versão da novela, na qual dava voz e corpo ao peão Tadeu, para interpretar o papel de José Leôncio, um dos personagens principais da trama, que tem arrancado suspiros dos telespectadores tanto pela atuação e charme do ator como também pelo importante papel na preservação ambiental que o ator reproduz fora das telas. 

Em um mundo imerso na comunicação instantânea das mídias sociais digitais, a novela Pantanal ocorre em uma velocidade que contradiz tendências. A história acontece em um ritmo mais lento que a frenética contemporaneidade, envolta na tranquilidade da vida no campo, no tempo a favor para uma conversa e com cenas idílicas da natureza pantaneira.

E assim, seguindo seu próprio fluxo, caiu nas graças da audiência alcançando uma alta média de 30 pontos no ibope, mostrando um público ávido pela profundidade de textos como os de Benedito Ruy Barbosa, autor da Pantanal original exibida na década de 1990 na TV Manchete. E lá está José Leôncio, favorito da audiência no remake. O porquê da preferência é claro: Palmeira trouxe mais amor à frieza distante do fazendeiro da primeira edição. “José Leôncio é um homem mais tenso do que eu, mas partilhamos o mesmo amor à terra, à natureza e ao Brasil”, dispara o ator. 

A novela inspira a transformação e questiona tratando de temas delicados como o machismo ancestral, o desmatamento, a agropecuária e a plantação de soja na região. “José Leôncio surpreende com a capacidade que tem de escuta e de reconhecimento de seus erros, mas não pudemos maquiar o machismo que existe nele. Só podemos criticar expondo-o como símbolo dessa que é uma realidade brasileira”, completa.

Palmeira enxerga a diferença na natureza pantaneira nesse hiato de 30 anos. “Percebo uma seca mais duradoura. E quem sofre com essa mudança são os bichos”, diz. “É importante entendermos a interligação entre os biomas, desmatar a Amazônia, por exemplo, prejudica os Rios Voadores, grande complexo de nuvens formado pela transpiração das árvores da floresta, que acaba por destruir o Pantanal, um bioma que precisa da água do entorno para sobrevivência de seus animais”, explica.  

A naturalidade com que fala sobre os aspectos que agridem a natureza não vem à toa. Há décadas, Palmeira é um defensor do meio ambiente, investindo sua carreira e tempo na preservação ambiental, parte dela realizada na Fazenda Vale das Palmeiras, em Teresópolis, região serrana do Rio.

É lá que o ator produz alimentos orgânicos, com foco nos derivados do leite, como queijo minas, ricota e iogurte, com vacas tratadas sem hormônios e antibióticos. É lá também que realiza atualmente um sonho antigo: o plantio de 200 mil árvores nativas da Mata Atlântica, entre elas o palmito-juçara, jequitibá, aroeira e pau-ferro.

Hoje, o local se tornou uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Com delicadeza e propósito, usa a fama que obteve em tantos anos de carreira para discutir a causa indígena, o problema do agronegócio, a importância da alimentação orgânica e também a corrupção no País. “Uso minha imagem para construir pontes, agregar, criar conexões para proteger a natureza.”

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