Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Mais uma chance

De todos os problemas que a vida oferecia aos personagens dos meus livros, confesso que a convalescença não era algo que me chamava a atenção

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2021 | 15h00

Romances são uma paixão antiga. Meus prediletos são biografias, histórias de força e superação sobre a vida de personagens reais. Acompanhar trajetórias em detalhes, seus desafios diários, sempre me manteve atenta aos meus próprios obstáculos na vida. Saber que alguém já passou por situações difíceis e conseguiu sair, muitas vezes até melhor, me conforta e traz a esperança para ultrapassar minhas próprias dificuldades. Histórias de pessoas que adoecem e conseguem sobreviver são marcantes. Após a doença, existe um momento nessa narrativa de vida que se chama convalescer. É esse meu ponto de partida.

De todos os problemas que a vida oferecia aos personagens dos meus livros, confesso que a convalescença não era algo que me chamava a atenção. Como um hiato entre estar doente e estar novamente saudável, convalescer me parecia só uma pausa sem a profundidade do feito causado em nossa personalidade por termos enfrentado a doença. O convalescente não é mais doente, sabe-se que, na maior parte das vezes, irá viver e, assim, esse tempo me parecia como um sono profundo para recuperar forças físicas que já estavam predeterminadas a retornar. 

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Neste verão, no entanto, tive mais uma vez a oportunidade de saber o quão pouco sei. Estive doente e sofri com sintomas diferentes de tudo o que já havia sentido. A bravura dos dias mais difíceis teve inspiração nas histórias de milhares de pessoas que lutam contra o desconhecido. Mas, o que me trouxe a mais importante reflexão não foram os piores dias. 

Foi o quão malcompreendida e pouco valorizada era para mim a convalescença. Passei dias de pura reflexão em que, sem forças para ser a Alice de antes, também ainda não havia me transformado no que seria depois. De hiato ou sono profundo, essa fase não tem nada. O momento é uma luta interna para se sentir novamente vivo, mas que nos faz experimentar a fragilidade humana e a transformação ainda em sua forma adormecida.

Para vivenciar a convalescença, dei-me conta que não podia tentar me entreter nem ter pressa. A pressa sempre fez parte de quem eu sou, o coelho da Alice sendo ela própria, atenta ao tempo para não perder nenhuma oportunidade. Em princípio, pareceu-me preguiça dizer que não poderia trabalhar, sendo que tempo, naquele momento, foi o que mais tive, mas esse tempo era de outra natureza.

Um tempo que precisava só que eu fosse presente. Tempo de ser e não de fazer ou realizar. Tempo de existir dentro da vulnerabilidade, do cansaço físico e mental. No meu caso, esse tempo também foi de sentir medo de não ser útil porque na utilidade sempre tive um lugar de protagonismo.

Ser amada no período da minha inutilidade foi um teste colocado à prova. Segundo o livro A Doença Como Caminho, do alemão Thorwald Dethlefsen, toda doença é um alerta da alma. Talvez este alerta, esta mensagem, possa se tornar clara nesse período que parece estático, mas que nos traz gradualmente de volta. De volta a um novo começo quando sentimos que tivemos mais uma chance.

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