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Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Lado a Lado

A vida sempre seguiu pautada no trabalho dedicado e nessa capacidade de ver, entender mensagens que pareciam cifradas, mas que para ela vinham como traduzidas

Alice Ferraz, Moda

11 de julho de 2021 | 15h00

As ideias continuavam a borbulhar em sua cabeça como sempre, sem hora para aparecer. No meio da noite, no banho, no carro, em meio a uma reunião de trabalho ou de família, tinha aprendido a conviver com os chamados “insights”, estalos mentais que demandavam uma energia extra para serem colocados em prática. Alguns eram pequenas mudanças de rota, outros, alterações drásticas de vida, de planos de trabalho. 

Quando a clareza era tão brusca quanto intensa, ela sabia que não podia esperar, era essencial agir no momento e, para isso, contava com sua energia vital, uma fonte inesgotável que poderia ser acionada instantaneamente. A vida sempre seguiu pautada no trabalho dedicado e nessa capacidade de ver, entender mensagens que pareciam cifradas, mas que para ela vinham como traduzidas.

A partir da compreensão, havia o momento da separação do que era urgente e a tal força para implementar o novo tinha que estar pronta para levar o corpo à realização das mudanças exigidas. Depois de anos se conhecendo e reconhecendo, parecia que sua fórmula interna estava definida. 

Até que o corpo começou a dar sinais “estranhos”: a ideia surgia, a mente se iluminava com a nova possibilidade, mas seu físico pedia um tempinho a mais na cama, no banho. Ele, que respondia como um parceiro fiel e sempre disponível, precisava agora de um tempo que ela não dispunha. A vida tinha pressa sempre e o prazo para realização das ideias não podia ser alterado.

Foi então que ela forçou a barra e estabeleceu um cabo de guerra, de um lado uma mente inquieta, uma alma sedenta, do outro, um corpo cansado pedindo por algo que ela não entendia. Será que agora, aos 50, tinha se tornado preguiçosa quanto aos seus deveres? Tinha medo de se perder, pois sabia que as ideias só vinham para ela porque sabiam que iriam ser executadas. Ideias são seres autônomos que escolhem bem onde se lançam e se não tivessem mais confiança em sua atuação parariam e certamente procurariam outro terreno fértil para jogar suas sementes.

Ela fingiu pelo tempo que conseguiu que nada estava acontecendo. Seu corpo iria entender que quem mandava ali era sua mente, seu desejo inesgotável pelo novo, pela transformação. E ele entendeu o pedido, aceitou e foi sendo levado, arrastado na verdade. Por pelo menos dois anos deu sinais claros de desconforto, ignorados solenemente. Deixou parte da cabeleira negra pelo caminho, acumulou alguns quilos na intenção de adquirir força para concluir as tarefas a que era submetido e, aqui e ali, adquiria alguma doença leve tentando chamar atenção.

Mas o dia que foi inevitável parar chegou. Marcou uma médica com certa urgência, como sempre. Precisava que tudo fosse resolvido rapidamente, não tinha tempo. Mas o tempo não se importava mais com seus chamados, nem o corpo com suas ordens, muito menos a médica. 

Um exame detalhado mostrou a falta de carinho que dedicara a seu veículo nos últimos anos, e de que nada valeriam seus insights, ideias, planos sem a força de seu corpo. A mulher de 50 voltou então seu poder criativo para si mesma e direcionou seu amor, compaixão e poder de transformação para seu maior e único aliado, que poderia novamente realizar suas ideias e sonhos. Agora, estão começando a se entender novamente. 

Ele foi ouvido, deixou claro que não se submeteria mais a suas vontades sem concordar. Ela ouviu com atenção, tentou não ser reativa, buscou ajuda na ciência para que ele se sentisse disposto novamente. Os dois sabem agora que não precisam mais do cabo de guerra, estão novamente lado a lado.

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