Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Julgamento

O distanciamento traz mesmo uma visão com certa sabedoria que vem com a clareza de enxergar sem a emoção de ser alvo

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 15h00

A primeira e mais forte atitude quando somos confrontados com feedbacks sobre nossos comportamentos é a reação negativa. Reagimos negando a visão do outro, a leitura que ele faz sobre nossas atitudes, fugimos do olhar julgador. Na linha “só o amor constrói” queremos ser, todo o tempo, amados e admirados por quem convive conosco. Não concordar é estar contra. “Presos” em nossas casas em tempos de pandemia, o olhar para si e para o outro ganha uma lupa potente. 

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Claro que analisar o outro é mais fácil. Como em um BBB, sentados em frente às nossas telas, analisamos atitudes e acreditamos entender a cena ampliada. Temos argumentos para “consertar” a vida de todos e melhorá-los. “Se ele/ela mudasse esse jeito, tudo seria mais fácil”, “será que ela/ele não enxerga o que está acontecendo?”. A resposta é, muito provavelmente, não. 

O distanciamento traz mesmo uma visão com certa sabedoria que vem com a clareza de enxergar sem a emoção de ser alvo. Esse olhar que diz verdades e fere pode, no entanto, ser usado como um ótimo espelho de quem somos. A vida em sociedade é repleta de respostas que, se ouvidas, nos poupariam de “paredões” da vida real. Sim, esta crônica faz parte das reflexões de quem está assistindo ao programa mais visto da televisão brasileira, 46 milhões de pessoas para ser mais exata. 

E aos que só ao ler o nome BBB sentem uma rejeição imediata, peço que, mesmo não sendo por gosto, mas para entender o que prende a atenção de tantos brasileiros, continuem a ler esta crônica até o fim.

Existem atitudes que permeiam as relações humanas das mais sofisticadas às mais emocionais. E olhar algumas dessas interações dentro do BBB, em um ambiente controlado por câmeras, é uma oportunidade única de observação. Somos todos humanos. Vivemos muitas vezes de profundas e deliciosas ilusões e, quando defrontados com a realidade, a maior parte das vezes, negamos. 

Ser eliminado de um paredão com 91% dos votos quando você acreditava ser protagonista amado da história que escreveu dentro do programa pode ser um paralelo com ser demitido sem entender por que, traído sem nunca ter imaginado essa possibilidade ou se deparar com uma separação que parece não fazer sentido. É ser confrontado com a verdade que tira você de uma ilusão criada. 

Mas e se antes que o paredão aconteça e tenhamos que realmente sair do “jogo”, possamos ouvir aquela crítica, que parecia tão ameaçadora, mas que poderia ser usada para vermos além da ilusão que criamos? Somos, como sociedade, todos observadores uns dos outros e essa visão pode contribuir para ampliar nosso leque de percepções.

Solitários em nossas certezas e ilusões de razão, esquecemos que enxergamos a cena sempre sob o mesmo ângulo e rejeitamos considerações que deveríamos usar para construir reflexões mais amplas sobre quem somos. Sendo vistos “de fora” – de fora do BBB ou de fora da bolha onde nos encontramos. Segundo Albert Einstein, o ser humano é parte do todo, mas nós experimentamos como algo separado do resto. “Uma ilusão de ótica, uma espécie de prisão que nos restringe aos nossos desejos e certezas pessoais. Nossa tarefa é sermos libertados dessa prisão.”

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