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João Braga: Novo Zeitgeist

Hoje, além da inevitável idade cronológica, fala-se da “idade social”, daquela que é regulada pela aparência

João Braga*, Moda

27 de março de 2022 | 06h00

Adaptar-se às realidades significa construir um novo ar dos tempos. A moda, antes de ser moda, é modo, é maneira, é comportamento. Cada época, com seus contextos, traz novos desafios e, consequentemente, novos valores. Um deles é o “etarismo” (termo cunhado em 1969, por Robert Butler), referindo-se às questões sobre a idade avançada. Também é conhecido como “ageísmo” ou “idadismo”.

No rebatimento com a moda, tanto em comportamento quanto em visualidade, há pouco mais de cem anos, era a filha que queria se parecer com a mãe: exemplo de beleza, postura e respeito, as moçoilas miravam-se nos espelhos maternos. Em meados do século 20, nos anos 1950, o padrão de beleza e moda foi o de uma mulher adulta rejuvenescida por saias rodadas, salto alto e cintura marcada.

A partir do final desta década, com a adolescência dos babyboomers, começou um verdadeiro processo de imposição de uma postura mais jovial que culminaria, mais adiante, com o comportamento e moda jovens. Passaram, então, a existir dois padrões distintos de identidades visuais e moda: o da mãe e o da filha.

Com o passar do tempo, as exigências sociais tornaram-se mais intensas. Vieram o culto ao corpo nas academias de ginástica dos anos 1980, as próteses e simulacros dos anos 1990 moldando a silhueta feminina e, a partir daí, tudo isso foi amalgamado pela vontade de rejuvenescimento intensificada pelo avanço da medicina, da cosmética antioxidante, da prática esportiva, assim como pela mudança dos hábitos alimentares e, portanto, jovializar-se tornou-se a febre do modo e da moda. Agora, um pouco mais de cem anos, é a mãe que quer se parecer com a filha, tanto em visualidade quanto em comportamento. Inversão total de valores. Aspecto de inclusão.

Hoje, além da inevitável idade cronológica, fala-se da “idade social”, daquela que é regulada pela aparência. Contudo, a experiência de vida, com o passar dos anos, é um mérito inquestionável. Sendo assim, mulheres experientes com aparência de menos idade estão cada vez mais valorizadas. Eis um novo zeitgeist. Como disse Gabrielle Chanel (1883-1971): “Você pode ser bonita aos trinta, charmosa aos quarenta e irresistível para o resto da sua vida”.

*João Braga é escritor, professor, especialista em moda pela Esmod Paris e mestre em História da Ciência pela PUC/SP, além de membro da Academia Brasileira da Moda.

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