Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Isto ou aquilo

Conversar sobre a vida e buscar consciência na interação, no meu caso, é parte integrante de quem sou

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2020 | 03h00

Sou do tipo que gosta de refletir e que busca profundidade em conversas sobre assuntos triviais. Por isso, adoro pessoas interessadas, que têm o desejo genuíno de escutar. Conversar sobre a vida e buscar consciência na interação, no meu caso, é parte integrante de quem sou. Gente assim causa certo desconforto, porque perguntar, muitas vezes, pode parecer ofensa. No dia a dia, falamos com inúmeras pessoas, familiares, amigos, conhecidos e, normalmente, falamos muito, ouvimos pouco e não perguntamos com a real intenção de saber. Esse é um comportamento padrão. Atuar nessa onda mais superficial pode até ser considerado positivo. A sensação, talvez, seja que dessa forma ficamos mais em paz conosco e com os outros. Não perguntar demais, não entrar em territórios que talvez sejam confusos e deixar a conversa leve faz parte do comportamento em sociedade.

Ainda no primário, descobri que perguntar demais seria um caminho mais difícil. Ao ser alfabetizada, queria porque queria entender com “profundidade” por que um A se chamava A – quem tinha dado nomes às letras? A pergunta que parecia feita de propósito para irritar minha irmã três anos mais velha e que tentava, até com certa “paciência”, me ajudar, rendeu-me uma dentada. Naquele dia, decorei tudo e não perguntei mais. Ok, o A é o A porque é, nasceu assim e fim.

Reparei que, durante a pandemia, as pessoas estão mais abertas a perguntas e mais interessadas e atraídas por respostas mais reflexivas. Tenho, então, aproveitado o momento e até encontrado pares. Em uma dessas conversas padrão, que começam com “como foi seu dia?”, empolguei-me com meu interlocutor em um assunto que faz parte da minha vida desde sempre, o trabalho. Respondi que havia sido um dia exaustivo e que acabara de sair do escritório.

Esperando um retorno também padrão, que diria algo como “você precisa descansar”, fui surpreendida por uma questão distinta: “E você está feliz? Foi um dia produtivo? Novidades?”, perguntou-me ele, que parecia mesmo interessado. Descobri naquele diálogo que estava extremamente feliz. Apesar do cansaço e da tristeza por estarmos em meio a esta pandemia, vi-me discursando sobre o valor e a alegria que sinto no meu trabalho. Precisava daquela pergunta para me lembrar desse sentimento.

Em mais 15 minutos, discorremos sobre propósito de vida e a conversa me fez ficar menos cansada por um milagre que vou chamar aqui de interesse. Claro que, por vezes, ficar entregue ao que os italianos chamam de “dolce far niente”, agradável ociosidade em tradução livre, é bom. Mas, a falta de trabalho, que gera a falta de interesse e propósito, só deixa o ser humano mais cansado, entediado e normalmente aborrecido – assim como diálogos convencionais sem profundidade, que também tendem a deixar a vida menos interessante.

E se passássemos a buscar alguma forma de equilíbrio? Ser superficial e, às vezes, profundo? Ser alguém que pergunta pouco e, outras vezes, pergunta muito? Aproveitar a vida e trabalhar? Respondo usando uma parte do poema Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles.

“Ou se tem chuva e não se tem sol, 

ou se tem sol e não se tem chuva! 

 

Quem sobe nos ares não fica no chão, 

Quem fica no chão não sobe nos ares.” 

 

E completaria: “ou se trabalha ou se fica ocioso 

Ou se é interessado ou não se tem interesse”. 

 

O desfecho escolhido por Cecília é perfeito. 

“Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.”

ALICE FERRAZ É ESPECIALISTA EM MARKETING DE  INFLUÊNCIA E ESCRITORA, AUTORA DE ‘MODA À BRASILEIRA’

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