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Isolamento criativo

Em períodos de tormentas sociais, sempre nasceram instigantes composições artísticas. Em variados segmentos, artistas contam como a nova rotina lhes proporcionou um olhar diferente para suas produções

Ana Carolina Ralston, Moda

30 de maio de 2020 | 16h00

Há quem diga que o isolamento é o hábitat natural dos artistas. Se considerarmos a produção feita em ateliês abrigando somente tintas, telas e o próprio autor, a afirmação não deixa de ser verdade. Mas, nesse pensamento, não estamos abarcando gêneros que costumam precisar de espaços públicos e outros personagens para tomar forma. Seja o artista mais introvertido ou expansivo, é da vida e de suas andanças que muitos retiram inspiração para produzir.

Fato é que ninguém sairá ileso das atuais transformações vividas pela sociedade, muito menos aqueles que fazem parte do mundo criativo. De tais períodos de dificuldades e sofrimento, não podemos nos esquecer das grandes obras-primas que nasceram, como Guernica (1937), de Pablo Picasso, produzida durante a Guerra Civil Espanhola; O Herói (1966-2000), de Anna Maria Maiolino, que denuncia a repressão vivida durante a ditadura militar brasileira; e as impactantes pinturas de Keith Haring, realizadas nos anos 1980, auge da pandemia de HIV do mundo, entre outras.

Mesmo com produção feita na solitude dos pincéis, a mineira radicada em São Paulo Nathalie Edenburg traz no traço a influência do entorno. Com uma carreira de modelo consolidada, mas vivendo atualmente em quarentena no País, o tempo expandiu-se com a pandemia dando a ela a possibilidade de desenvolver a pintura com mais afinco. Criou até uma série baseada na experiência. Em Alcatruz, desenha jarros, destinados a guardar água – para ela, uma reflexão do vazio que vivemos. “Tenho passado dias pintando e, com o espaço de que disponho, produzindo obras maiores do que aquelas que podia carregar durante as minhas viagens”, comenta. Na produção atual, pretende destinar 50% do valor a instituições que combatem o novo coronavírus na região do litoral paulistano.

A adaptação ao momento atual do mundo também moveu a produção do paraense Emmanuel Nassar. Reconhecido por sua obra composta de tradições visuais populares brasileiras, misturando peças sucateadas com outras feitas em ateliê, Nassar é autor de grandes colagens e quebra-cabeças que integram importantes coleções pelo Brasil. Em isolamento no nordeste do País, criou junto às netas a série de múltiplos Açaí, feita com tinta acrílica em papel amassado. “São 500 unidades feitas artesanalmente e em conjunto”, explica.

O fotógrafo Fabiano Rodrigues optou por mergulhar em uma nova série que mistura tecnologia e colagem, gênero que há tempos pontua sua produção. Com obras que exploram a relação do próprio corpo com a arquitetura e paisagem de centros urbanos, Rodrigues está hoje confinado e entretido com antigos HDs corrompidos. As imagens quebradas parcial ou totalmente compõem sua nova pesquisa. Se antes as fotografias traziam o preto e branco quase como um ponto comum entre as séries, a cor e a vibração digital, quase como uma interceptação audiovisual, aparecem ditando o novo caminho. Vivendo atualmente em Los Angeles, nos Estados Unidos, o paulista teve de mudar os planos e voltar para o Brasil durante o período de isolamento. “Como passar ileso?”, brinca o artista. Ainda será preciso certo distanciamento histórico para que essas obras feitas em confinamento ganhem importância e passem a ser um retrato da transformação social atual. A impressão que existe, entretanto, é que vai sair muita luz em forma de arte a partir do caos.

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