Ímpeto vital

Ímpeto vital

Quero mesmo, depois de vacinada, sentir novas sensações, seja na conquista, na emoção positiva vinda de lutar contra minha preguiça dos exercícios ou experimentar cervejas em pubs que nunca pensei em entrar

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2020 | 03h00

Durante toda a pandemia, por mais que soubesse a importância de se praticar exercício físico para a saúde, não fiz nenhum. Quando digo nenhum é nenhum mesmo. Segui por meses em um profundo sedentarismo voluntário. No começo, parei as corridas que estava fazendo regularmente, mas ainda continuei a fazer caminhadas. Depois, parei até de caminhar e fim. Quanto mais culpada ficava por não fazer nada, menos fazia em um círculo vicioso paralisante.

Em vários momentos, defendi-me de mim mesma contando histórias de que não podemos ter tudo e eu estava dando o meu melhor dadas as circunstâncias. Tentei convencer-me que o exercício físico ia ficar para depois e era aceitável e natural. Jurei que voltaria a fazer caminhadas por pelo menos 20 minutos depois que a fase mais rígida da quarentena acabasse. Mudei o prazo para quando eu fizesse aniversário, em seguida para depois que o inverno terminasse e depois e depois. E novembro chegou e lá estava eu domingo passado deitada no sofá assistindo ao Fantástico com um balde de pipocas nas mãos.

A certa altura, ouvi a notícia do começo da vacinação contra a covid-19 no Reino Unido. O repórter começa a matéria em meio a um parque tipicamente inglês, entrevistando uma brasileira que mora há anos em Londres e perguntando o que ela fará no primeiro dia de “liberdade” após receber a sua dose de vacina. Ela responde com aquele sorriso no olhar por trás da máscara, que agora conseguimos ler: “Vou encontrar meus amigos em um pub, beber cerveja e rir”. Naquele momento, fiquei feliz e com vontade de beber cerveja. Mas, não bebo cerveja, nunca tive vontade de frequentar pubs e não moro na Inglaterra! Foi nesse momento que decidi levantar do sofá e colocar pela primeira vez em 10 meses meu tênis e calça de esporte e fui andar na esteira com a cabeça e o coração cheios de energia.

Percebi, então, que, mais do que aquilo que eu tenho saudades, mais do que voltar a fazer aquilo que amava e fui privada por meses, quero agora também realizar coisas novas e parar de inventar desculpas para não fazer o que não gostava, mas, com esforço, me propunha e conseguia. Estranho? Não, e explico o porquê. Sou apaixonada por moda, então, claro que quando estiver vacinada, voltar aos grandes centros europeus para poder assistir aos desfiles e ver suas coleções de perto será meu primeiro impulso.

Percebi na verdade que, nesse período, coisas que amo, como a moda, continuaram na minha vida, de outras formas e olhares, claro, mas sempre presentes. O que saiu da minha vida foram as coisas novas ou as que eu não gostava e que me dei ao direito de tirá-las, afinal, tinha uma boa desculpa para parar, devido à pandemia. Percebi o quão “espertos” somos: damos um jeito de continuar fazendo o que gostamos e paramos o que nos demandava muito esforço. Nesse momento, em que resiliência máxima nos foi exigida, parecia natural nos darmos um descanso em certas áreas. Me gabar de que li e trabalhei até mais durante a pandemia, me pareceu então, de uma tolice sem fim.

Estou na minha zona de conforto nessas áreas. Quero mesmo, depois de vacinada, sentir novas sensações, seja na conquista, na emoção positiva vinda de lutar contra minha preguiça dos exercícios ou experimentar cervejas em pubs que nunca pensei em entrar. Um ímpeto vital talvez à liberdade. Então, que seja exatamente isso. 

ALICE FERRAZ É ESPECIALISTA EM MARKETING DE INFLUÊNCIA E ESCRITORA, AUTORA DE ‘MODA À BRASILEIRA’

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