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Herança Revisitada

Em coleção de estreia para a Chloé, a uruguaia Gabriela Hearst traz suas referências latinas e preocupações ambientais à casa de moda francesa

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2021 | 05h00

Existem momentos em que o mercado finalmente demonstra na prática o avanço conquistado por décadas de empenho em direção a uma mudança de comportamento social. Nesta semana, um sinal deixou claro que uma porta se abriu no mercado da moda internacional para mulheres latinas, e ele se chama Gabriela Hearst. A uruguaia conquistou Paris como a primeira diretora criativa latino-americana da Chloé, uma das casas de moda que mais representa a tradição francesa. 

Nascida em 1976, Gabriela faz parte de uma geração pré-internet da América Latina, que viveu longe da cultura de moda dos ícones da tradição do mercado na Europa. Criada no rancho da família na cidade de Paysandú, teve contato desde criança com as origens de seu país e cresceu entre cavalos, bois e ovelhas. Gabriela descreve sua noção de luxo como algo que significava "coisas trabalhadas lindamente, mas feitas para durar". Uma consciência de que nada pode ser desperdiçado acompanhou sua infância e adolescência que tem, como ela mesmo diz, “uma base de consumo no propósito, no valor da tradição e na herança cultural e não na tendência”.

A herança cultural a que Gabriela se refere mostrou toda sua potência na última semana, em seu primeiro desfile à frente da Chloé, marca que em 69 anos de história sempre traduziu a cultura francesa. As forças de duas mulheres parecem ter se encontrado para construir um caminho de cooperação e união em prol de um mundo em transformação. Duas Gabrielas, uma menina imersa na cultura da América Latina que, em comum com Gabrielle Aghion ou Gaby, como era conhecida a fundadora da Chloé morta em 2014, aos 93 anos, e nascida no Egito, tem a vontade incansável de construir roupas para uma mulher forte, moderna e sem rigidez, em sintonia com seu tempo, ética e valores. 

O primeiro desfile de Gabriela à frente da marca ocorreu em tempos de pandemia. Filmado no mesmo cenário onde, em 1956, Gaby Aghion fez seu primeiro desfile, nos arredores do clássico Café de Flore e da Brasserie Lipp, região frequentada pelos jovens intelectuais nas décadas de 1940 e 1950, Gabriela demonstra que entendeu o DNA da grife. 

Se na época de Gaby Aghion, as preocupações eram prioritariamente sobre valores e conquistas femininas, hoje Gabriela deixa claro sua agenda prioritária: a ambiental, focada em transformar a Chloé na marca de luxo mais sustentável do mundo. “Precisamos nos movimentar rapidamente para uma economia circular na moda”, disse a estilista à jornalista inglesa Suzy Menkes, alguns dias antes do primeiro desfile.

Em sua estreia, Gabriela já conseguiu que os famosos cashmeres, carros-chefes da marca, fossem feitos com 80% de fios reciclados. No desfile, ela também cumpriu a promessa de não deixar as mulheres sofrerem com sapatos desconfortáveis: suas modelos foram filmadas caminhando com firmeza em botas cômodas nos paralelepípedos do bairro Saint-Germain, em Paris. 

A moda de Gabriela é instantaneamente desejável para uma mulher multicultural. A mistura de sua origem latina traz uma nova leitura para a herança francesa da mulher Chloé e cria uma figura feminina mais atual, elegante e firme. Gabriela traz o artesanato em peças de luxo mostrando que esses podem coexistir de maneira harmônica. A nova bolsa Juana, que tem couro em patchwork, coroa o novo momento da marca. 

Outra peça que está no DNA da Chloé são os ponchos. Recentemente, Gabriela Hearst agradeceu a sorte de encontrar como um dos símbolos da marca esse elemento de herança latina, contando que o pai sempre usou ponchos. Lembrança que a ajudou na criação do modelo da atual estação. 

“Interpretar a feminilidade no contexto do seu tempo” é a frase que se torna visível em alta voz na página do release da marca. Um tempo que pede que o feminino olhe, perceba, acolha e ajude a salvar o planeta a partir da construção de uma nova moda.

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