Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Guerrilla Girls

Com a névoa do tempo, a história se perdeu e a imagem é vista romanticamente apenas como uma bela jovem em treino

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 15h00

A visita era para ver obra de Edgar Degas, em especial sua bailarina de bronze, uma imagem ambígua que tinha, na época em que foi criada, em 1881, a intenção de retratar o trabalho árduo de uma adolescente de apenas 13 anos tentando conseguir um posto de trabalho remunerado na Ópera de Paris. A escultura é o retrato de um tempo, mais especificamente da França, em que bailarinas eram normalmente filhas de operários em constante estresse financeiro e que dançavam para ajudar a família. 

Com a névoa do tempo, a história se perdeu e a imagem é vista romanticamente apenas como uma bela jovem em treino. Eu já estava inquieta com a ideia de como nos deixamos enganar facilmente quando, passando pelo primeiro andar do Museu de Arte de São Paulo (Masp), vi um cartaz emoldurado pelos emblemáticos cavaletes de Lina Bo Bardi com a frase: “as vantagens de ser uma artista mulher”. Fui então arrastada de imediato para frente da obra na esperança infantil de aconchego por meio de frases que me mostrassem um caminho pelo qual percorrer com mais facilidade o meio artístico. 

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Para quem conhece a obra do grupo feminista Guerrilla Girls, fundado em Nova York, em 1985, vai rir da minha total falta de noção e conhecimento. Para quem, como eu, não o conhece, o grupo se formou com a missão de trazer a desigualdade de gênero e raça com foco dentro da comunidade artística. Esse cartaz teve em mim o efeito oposto que eu buscava: ao invés de curar a dor que estava latente, abriu ainda mais a ferida. Nele, fica claro que, mesmo depois de quase 30 anos, estamos em um lugar ainda sem equilíbrio quanto ao nosso reconhecimento. “Ver suas ideias viverem no trabalho de outros” e “trabalhar sem a pressão do sucesso” são algumas frases de humor que aparecem na obra da Guerrilla Girls. 

Como alguns que me leem sabem, sou uma empreendedora, uma mulher que teve foco em sua carreira profissional não só por prazer e propósito como por necessidade de trabalhar e ganhar seu próprio sustento. A literatura como forma de expressão artística nasceu da vontade de contar histórias, minhas e dos outros, que precisavam ser escritas para existirem por mais tempo. Esse meu apetite foi usado durante os últimos 25 anos da melhor forma que pude, com foco total em meu trabalho na comunicação e pouco em um exercício literário. 

Assim que recebi o convite para escrever no Estadão, com a liberdade de pensar como seria essa minha página, em meio a uma pandemia trancada em casa, tive o atrevimento de expor minhas crônicas e não só textos e reportagens de moda. Recebi (e ainda recebo), então, as mais inusitadas perguntas repetidamente: “Alice, parabéns pelo espaço, quem escreve suas crônicas?”, “adoro o que você pensa, quem escreve para você?”, “Alice, quantas ideias geniais, quem escreveu?”. 

Essas são frases de mulheres que têm dentro de si a pouca confiança do que uma mulher é capaz. Essa falta de crédito me atinge como espelho de suas/nossas próprias incertezas. Somos capazes? Somos talentosas, competentes o suficiente? Respondo essas perguntas aqui e reitero para mim mesma: somos tão capazes quanto audaciosas, talentosas e esforçadas e, sim, essas crônicas são escritas por mim. 

 

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