Juliana de Souza
 Juliana de Souza

Gerações: Mais que mães e filhos, são amigos e parceiros profissionais

Mais que mães e filhos, são amigos e parceiros profissionais. Conheça a história de mulheres que levaram para além da maternidade suas relações afetivas

Ana Carolina Ralston, Moda

01 de maio de 2021 | 23h00

Etel, Lissa e Camila Carmona

Foi no início dos anos 90 que Etel Carmona fundou a loja que leva seu nome e que hoje reúne algumas das mais desejadas peças de design brasileiro do mercado nacional e internacional. Na época, a filha Lissa trabalhava no mercado financeiro, mas já trazia no peito o amor pelo tema que a mãe escolheu como profissão. Foi durante a primeira feira internacional da Etel, em Nova York, que as duas se uniram, cada qual em sua área de interesse, e nunca mais se separaram. “Somos muito próximas e também muito diferentes – justamente por isso, complementares. Minha mãe é uma artista, que fundou e criou a empresa. Eu tenho um perfil mais acadêmico.

Temos uma admiração mutua uma pela outra: eu pela coragem dela de empreender e ela pelo meu lado gestora”, conta Lissa. Hoje, quem também completa o time é a irmã Camila, que cuida da área comercial da galeria de São Paulo. “Somos uma empresa familiar e feminina”, completa.  

Lilia e Júlia Schwarcz

Historiadora e antropóloga brasileira, Lilia fundou ao lado do marido uma das mais importantes editoras de livros do mundo, a Companhia das Letras. Dela nasceu muitos selos, entre eles o infantil, chamado Companhia das Letrinhas, por onde a filha Júlia ingressou na empresa há 20 anos. “Ela entrou como assistente e de lá cresceu. Hoje é publisher da editora”, conta Lilia. “Nesse tempo, trocamos originais, desenhos e muitas ideias, somos amigas e nos damos muito bem dentro e fora do trabalho.” 

A leitura reforça a íntima ligação de mãe e filha. No momento, estou lendo Ponciá Vicêncio, livro de Conceição Evaristo que conta a história de uma mulher negra que carrega sua ancestralidade. Uma publicação potente e cheia de subjetividades”, conta a editora. Entre os infantis que marcaram a história da família está Uma Letra Puxa a Outra, primeiro publicado pela Companhia das Letrinhas. “Foi como tudo começou. Tratava- se um abecedário com as artes gráficas do Kiko Farkas e a poesia sensível do José Paulo Paes.”

Para a filha, o marco é Liga-Desliga, primeiro em que colaborou como editora. “Quando o livro estava quase pronto, minha mãe me pediu para ler e dar a minha opinião, em troca de não sei quantos cruzeiros reais. Tarefa que eu cumpri com a maior seriedade e dedicação, achando ser necessário copiar a história inteirinha no parecer antes de chegar aos meus comentários”, relembra Júlia.

NARA, DANIEL E ALEXANDRE ROESLER

Nara Roesler surpreendeu os conterrâneos de sua natal Recife quando, em 1989 inaugurou a galeria que leva seu nome, em São Paulo. Hoje com filiais no Rio de Janeiro e em Nova York, representa alguns dos mais incensados nomes do circuito nacional e internacional, como Vik Muniz, Tomie Ohtake, Abraham Palatnik e Daniel Buren.

Foi no aniversário de dez anos da galeria que o filho Daniel se juntou a mãe para dirigir o negócio, que já se estabelecia entre os grandes nomes do mercado das artes. Mais dez anos trouxeram o segundo filho para a equipe, que segue em pleno voo nos dias de hoje. “Aprendi a ver o mundo sob a ótica de pessoas 20 anos mais moças que eu. Outra geração e muita tecnologia. Diferenças que nos fizeram crescer”, conta Nara.

RICCY, CAROLINA E CICCY DE SOUZA ARANHA

Dia das Mães é um momento especial para a Mixed, tanto que sua fundadora, Riccy de Souza Aranha, desenvolve uma coleção com peças inéditas para a data, ao lado de Ciccy e Carolina. A trindade composta por mãe e filhas é uma parceria de longa data: Carolina, arquiteta, está há cerca de 20 anos na marca e Ciccy, artista plástica, há 15. Ambas começaram jovens, aos 19 anos, no mesmo ofício da mãe, apaixonada por moda e pelo feminino. “Passaram pelas áreas de vendas, criação e administração justamente para entender todo o processo e desenvolvimento.

São opostos-complementares. Carol me ajuda a aterrissar, ela me traz a objetividade e sensatez que precisamos. Já Ciccy nos mergulha na sua criatividade. Nossa relação é baseada no amor e na amizade”, conta Riccy. Juntas à frente de um dos nomes mais só lidos da moda nacional, elas atestam que o respeito é a base da relação. “Isso faz nosso trabalho ser integrado e potente.” O desafio? “Ter a frieza para enxergar o membro da sua família como indivíduo passível de erros. Me policio muito”, conta Riccy. Na atual coleção para celebrar a data, elas apostam nas tonalidades pastel, principalmente no rosa, símbolo do amor e da ternura do laço afetivo. “Também trazemos o floral, outra marca desse sentimento”, completam.

CELIA E MARIANA VIANNA 

Foi em 1992 que Celia e o marido Joaquim Vianna Neto (daí as iniciais JVN que dão nome à empresa) criaram o negócio que revolucionaria o mercado de papeis de parede tanto pelo design quanto por sua qualidade. Eram inúmeras viagem à Europa para estudar as novidades, obter inspirações e know-how, viagens estas que a ainda pequena Mariana acompanhava de olhos atentos.

Assim, todo o universo da JVN  Papéis de Parede já fazia parte do dia a dia da filha, quando, em 2009, ela entrou para o time como vendedora. “Passei por todas as áreas para entender a empresa como um todo”, explica Mariana, hoje diretora criativa do negócio. “Não é fácil ter a mãe como chefe. Aprender a separar a relação e transformá-la em algo profissional é um desafio. Ainda mais para nós duas, que atuamos em áreas completamente diferentes dentro da empresa e sentamos lado a lado. Minha mãe é diretora comercial.” Apensar dos embates, o tino para negócio da mãe sempre inspirou Mariana. “uma grande vendedora à frente de seu tempo.” 

Lu e Maria Victoria Monteiro

Foi no início da pandemia, há cerca de um ano, que a estilista e empresária Lu Monteiro e a filha Maria Victoria passaram a trabalhar juntas na marca homônima da mãe. “Antes de ter filhos, achava que essa seria uma relação de mão única, na qual só eu ensinaria. Hoje vejo o quanto aprendo com a Maria Victoria todos os dias”, conta Lu, que assina a área criativa da grife de luxo brasileira. “Mãe a gente não escolhe, mas ser amiga da mãe é uma escolha que faço todos os dias. Aprendo muito sobre como lidar com problemas da vida adulta vendo minha mãe diariamente na empresa”, explica Maria Victoria, de 20 anos, que atualmente faz uma temporada na área de marketing da grife.  

Há 16 anos produzindo uma moda autoral de qualidade, mãe e a filha escolheram look e locação da foto que falassem sobre questões geracionais. Vestidas com a atual coleção da marca, chamada Universo Particular, inspirada em uma canção de Marisa Monte que marca a relação das duas, mãe e filha foram clicadas na casa antiga da avó de Lu, onde hoje funciona uma das lojas da marca (e também onde a grife começou), na Avenida Republica do Líbano, em São Paulo. “Espaço e roupas que convidam a essa visita ao universo particular da minha criação”, completa a estilista. 

Maria de Lourdes, Sandra e Patrícia Anselmi 

Maria de Lourdes começou trabalhando nas malharias da cidade de Farroupilha, na Serra Gaúcha, para dar início ao seu próprio negócio – hoje, 40 anos depois, uma das mais bem-sucedidas marcas do segmento de tricô, a Anselmi. A empresa familiar conta com Sandra, filha mais velha, na direção de criação e Patrícia, a caçula, como diretora de marketing. Além delas, o irmão Eduardo é o responsável por toda a área de produção da malharia com design autoral, produção local, tinturaria própria e respeito pelo meio ambiente. 

“Nossa relação sempre foi muito próxima, por vezes, se confundindo entre pessoal e profissional. Desde o início da empresa, o assunto em nossa casa girava em torno do trabalho. Nossa mãe foi muito exigente conosco, mas sempre nos incentivou a alçarmos nossos próprios voos”, conta Patrícia. “O que de mais importante aprendemos uma com a outra é a importância da empatia, seja no trabalho ou na vida pessoal, e de buscarmos aprender sempre, lembrando dos princípios e valores que passam de geração em geração em nossa família e que norteiam as decisões que tomamos em nossas vidas?”, completa Sandra. Hoje, a marca emprega 80% de mão de obra feminina, o que ajuda a transformar a realidade e os sonhos de muitas mulheres da sua região. 

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