Colagem/Coluna Bonder/ Revista MODA
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Fora de Moda: uma análise por Nilton Bonder

É curioso que uma das maiores questões do nosso tempo seja exatamente o excesso de individualismo que afirma em alto e bom tom: é ótimo estar só!

Nilton Bonder, Moda

06 de junho de 2021 | 07h00

“Não é Bom Estar Só”, comenta Deus no texto de Gênesis. É de estranhar-se esse comentário visto que em nenhum outro momento da Criação Deus compartilha suas reflexões ou opiniões. Isso permite imaginar que talvez essa não seja uma ponderação divina, mas um elemento integral da própria Criação. “Não ser bom estar só” teria sido um ato deliberado de criação que visava embutir esse incômodo na natureza humana.

Isso faz sentido se levarmos em conta que o próprio desejo de criar o mundo revela o desconforto divino por estar só. Estaria o Criador compartilhando uma característica que Lhe era própria com a Sua criatura? Seria essa a razão pela qual definiu a criatura humana como sendo Sua “imagem e semelhança”? Seríamos reflexo de Deus pelo desagrado em estarmos sós?

É curioso que uma das maiores questões do nosso tempo seja exatamente o excesso de individualismo que afirma em alto e bom tom: é ótimo estar só! Parece fora de moda a tal aflição de “não ser bom estar só”. Queremos espaço e tempo pessoal, aspiramos a privacidade, autossuficiência e buscamos exclusividade em nossas vidas. E assim o engate maior com o outro se faz sempre por interesses. O que você pode fazer por mim? O que posso tirar de você?

Interesses não produzem vínculos, ao contrário, nos separam. E na recorrência de ficarmos separados nos tornamos sozinhos. Sentir-se só é uma sensação terrível, muito mais grave que o desconforto da solidão. A solidão pode ser compartilhada com outro solitário numa boa fossa com um copo de uísque na mão ouvindo um blues. Estar só, porém, não pode ser partilhado.

Essa é a importância do namoro. Nenhum ser humano pode viver sem estar enamorado, esse mágico estado de dependência e de laço com um outro. A importância desse “outro” não é o que ele tenha a oferecer, mas o mero fato de ser nosso “outro”, aquele que nos salva do desgosto de estar só.

Enamorados são aqueles que têm um “outro”. Santo é esse mal-estar implantado no âmago de nossa essência! É o comando que cria o namoro. Ele afirma algo tão surpreendente quanto fora de moda: o eixo maior da vida não é ser a si próprio, mas não ser só!

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