Fora de moda

Fora de moda

Se a mensagem que todos recebemos não foi ouvida, teremos um Natal com menos consciência e sem o cuidado necessário com a nossa saúde e a dos outros

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2020 | 03h00

Domingo da semana que antecede Natal. E, como todos, estou ansiosa ao olhar tão de perto para um Natal que, certamente, será inédito. Sou daquelas que ama essa época do ano, presentes, árvores, ceia e família reunida, mas, este ano, nada do que eu pessoalmente gosto interessa. Se eu pudesse usar uma só palavra para definir o que 2020 nos ofereceu, eu diria consciência. Uma capacidade de perceber a relação entre nós mesmos e o ambiente em que vivemos.

Ser consciente é estar ciente do que se está vivendo, do que acontece ao nosso redor. Neste ano, ter entendido o recado que a vida enviou faz parte dessa consciência. A mensagem foi dura, sem meias palavras e, para ouvi-la, bastou estar no planeta Terra. Neste Natal, estar consciente da nossa responsabilidade com relação a nossa vida e a de outras pessoas não pode ser opcional.

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Tivemos um treino imbatível. Meses de pandemia, fechados em nossas casas, ou em nossas máscaras, nos deram tempo suficiente para desligar o piloto automático, parar, perceber quem somos, olhar o outro com mais profundidade e nossa própria vida com lente de aumento.

Mas, como tudo na experiência humana, essa foi uma oportunidade e nunca uma imposição. Ainda tem quem “tape o sol com a peneira”, quem vive como se a pandemia não tivesse nos afetado, como se a pressão exercida para nossa tomada de consciência não tivesse acontecido. Quem vive querendo que tudo volte ao “normal”, quando o normal mudou de cara porque nós mudamos. Já me disseram que isso demonstra leveza, teimo em acreditar que não. A lucidez pode ser alegre, garanto. Sei também que ter consciência do que vivemos pressupõe primeiro que tenhamos autoconsciência e aí as coisas se complicam. Sem autoconsciência não se consegue ter consciência dos fatos e das relações entre eles. Sem autoconsciência não existe reflexão.

Este texto que escrevo pode parecer confuso, mas também diria que é necessário. Necessário porque se a oportunidade que todos tivemos, se a mensagem que todos recebemos não foi ouvida, teremos um Natal com menos consciência e sem o cuidado necessário com a nossa saúde e a dos outros. E como este espaço é escrito por alguém de moda – e, como tenho dito repetidamente por aqui, a palavra moda vem do latim modus, que significa mais do que como nos vestimos, mas também como agimos e nos comportamos em determinado tempo histórico ­, posso garantir que não há nada mais fora de moda do que não ser consciente. Consciente da oportunidade da vida, da responsabilidade consigo e com o outro. Por um Natal consciente, alegre e cheio de amor.

ALICE FERRAZ É ESPECIALISTA EM MARKETING DE INFLUÊNCIA E ESCRITORA, AUTORA DE ‘MODA À BRASILEIRA’

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