Daniel Roseberry /Schiaparelli
Daniel Roseberry /Schiaparelli

Folia surrealista

O carnaval encontra na alta-costura de Schiaparelli a irreverência e a exuberância que a festa celebra

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2021 | 05h00

Um 2021 sem carnaval, sem fantasias exuberantes das passistas cruzando o sambódromo. Nada de as cores das alas das escolas de samba ou dos blocos nas ruas invadirem nossas retinas. As máscaras que cobrem o rosto são para preservar nossa saúde. Um ato de cuidado, em detrimento das alegrias da folia de fevereiro. No entanto, para os olhos atentos e amantes de moda, a riqueza criativa e visual dos adornos brilhantes que estimulam a imaginação ainda pode ser encontrada, principalmente quando se olha a nova coleção de alta-costura da Schiaparelli.

Elsa Schiaparelli nasceu em Roma, na Itália, em 1890. Abriu seu ateliê em 1927 e, nos anos 30 e 40, ganhou fama no mundo da moda com seu olhar único e disruptivo para os códigos da época. Schiaparelli, que morreu em Paris em 1973, era uma amante do surrealismo, movimento artístico marcado pela fantasia e espontaneidade, características notáveis em seu trabalho.

A italiana já estampou um vestido de gala com a imagem de uma lagosta, criou um chapéu com formato de sapato e colaborou inúmeras vezes com o artista ícone do movimento, Salvador Dalí. Além disso, era amante dos bordados, dos volumes exagerados, do rosa-choque e do trompe l’oeil, técnica que usa artifícios bidimensionais para criar efeitos tridimensionais nas roupas.

O espírito de vanguarda da fundadora da casa de alta-costura permanece vivo e pulsante com o trabalho do americano nascido no Texas Daniel Roseberry, atual diretor criativo da Schiaparelli, que assumiu o posto em abril de 2019. Prova disso é a coleção que vimos, virtualmente, em janeiro. Com formas exageradas, acessórios que mimetizam o corpo humano de uma forma transformadora e a qualidade primorosa de uma coleção de alta-costura, Roseberry apresentou uma brincadeira experimental com um nível altíssimo de maestria técnica que encantou e marcou a temporada.

“Eu quis fazer uma casa de couture alternativa: aqui, a fantasia não é o vestido de princesa ou a roupa delicada. Essas são peças que te fazem consciente do seu corpo, que te fazem pensar em como você se move pelo mundo”, explicou o executivo à imprensa. “Elsa Schiaparelli também fazia roupas que alteravam o corpo, mas as intenções dela nunca foram macabras; em vez disso, ela encorajava uma exploração da forma humana de modo jovial. Suas peças eram feitas para celebrar a alegria de aparecer, a graça de se mostrar.”

O bom humor e a extravagância feitos pela casa de alta-costura na Europa se conectam à essência do carnaval brasileiro e trazem uma dose extra de surrealismo ao nosso ano de 2021, inspirando pensamentos de folia e festa, apesar da necessidade de distanciamento social. “A palavra ‘magia’ é comumente usada para se discutir a alta-costura. E ela é mesmo mágica. Mas, por trás da magia, estão as mãos e a dedicação humanas. Essa coleção é um tributo ao trabalho por trás da magia. E à própria magia em si”, afirma Roseberry.

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