Marcio Simnch
Lenny Niemeyer apresentou sua coleção na SPFW no formato de fashion filme com ares de balé Marcio Simnch

Fashion filme: dança e poesia dão o passo e tom para vídeos na SPFW

Semana de moda de São Paulo e roupas ganham força e impulso com movimentos coreografados

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2020 | 05h00

O novo coronavírus causou o cancelamento da temporada de abril da São Paulo Fashion Week (SPFW), mas os trabalhos que vêm sendo apresentados nesta semana no formato chamado de fashion filme provam que a pandemia não imobilizou o mercado da moda. Sem a possibilidade de encher salas de desfiles e colocar modelos para cruzar passarelas, os estilistas encontraram na dança um caminho para dar movimento às roupas e ao setor.

A coreografia de Bia Marques transformou os biquínis, maiôs e peças fluidas da grife Lenny Niemeyer em pura poesia. “Por baixo de cada peça de roupa existe um corpo com infinitas possibilidades de expressão”, disse a coreógrafa que coordenou as modelos do projeto divulgado na quarta-feira, 4.

Luisa Arraes e Caio Blat, que dirigiram a apresentação da marca Isabela Capeto, preferiram convidar bailarinos para executar a sequência rítmica assinada por Amália Lima. “A alegria e a exuberância da Isabela estão ali”, afirmou Luisa. Aliás, a estilista participa de fato das imagens e entra na roda de dança que começa em seu apartamento, no Rio de Janeiro, e vai terminar no Aterro do Flamengo. “Eu estava com medo, porque eu nunca tinha feito um filme. Mas a vida mudou, não adianta eu querer fazer um desfile como se fosse em uma passarela”, explicou Isabela.

A movimentação dinâmica chama atenção. No entanto, a obra foi inspirada na rotina de Capeto na quarentena e nas peças desenhadas. “Criamos uma ‘historinha’ para as roupas”, disse Caio. “É um limite muito tênue, porque é um vídeo publicitário. Ao mesmo tempo é um vídeo de arte, de moda”, concluiu.

 

Alexandre Herchcovitch

Para celebrar seus 50 anos, Alexandre Herchcovitch exibiu na quinta, 5, um minidocumentário sobre seis criações. Uma das peças foi o casaco de látex inspirado em Marilyn Monroe, incompreendido na época. 

 

Destaques da programação da SPFW neste sábado

 A grife Martins marca presença neste sábado, 7, na semana de moda de São Paulo. A maioria das suas peças vem em tamanho único, mas como são produzidas em silhueta oversized podem ser usadas por diferentes tipos de pessoas.


A Modem apresenta neste sábado, 7, às 16h30, um filme que reflete sobre o tempo. Peças de coleções anteriores da marca foram usadas para compor 15 looks que trazem estética industrial e alfaiataria desconstruída.

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SPFW começa edição histórica de 25 anos e institui cota racial

Em meio à pandemia, evento adota formato totalmente virtual e obrigatoriedade de 50% dos modelos serem afrodescendentes, indígenas ou asiáticos

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 05h00

É grande a responsabilidade da São Paulo Fashion Week (SPFW) que começa hoje (4). Após o novo coronavírus causar o cancelamento da temporada, que costuma ocorrer em abril, ficou para esta edição o papel de celebrar os 25 anos da semana de moda. A pandemia ainda desafiou o evento, que segue até domingo, 8, a adotar pela primeira vez o formato totalmente virtual com transmissão dos desfiles nas redes sociais. Entretanto, a expectativa subiu depois que a organização instituiu de maneira pioneira uma cota racial. 

A partir desta temporada, 50% dos modelos de cada apresentação devem ser afrodescendentes, indígenas ou asiáticos, com parentesco até segundo grau. 

Apesar de ser uma decisão histórica, a organização escolheu implementá-la sem grandes anúncios. A regra foi incluída no “manual de convívio coletivo”, como chama Paulo Borges, fundador e diretor criativo da SPFW. O documento é enviado antes de cada edição para as marcas participantes. 

No entanto, a novidade rapidamente se tornou assunto. A modelo Camila Simões destaca que a semana de moda é o primeiro espaço que um modelo brasileiro precisa conquistar. É o evento na capital paulista que define se um iniciante deve ou não voltar para a cidade natal. 

“É preciso lembrar que os 50% não é um benefício, é um direito conquistado”, afirma Camila. Ela, Natasha Soares e Thayná Santos, que participam do coletivo Pretos na Moda, foram decisivas para essa mudança se concretizar. As três modelos “invadiram” uma live de Paulo Borges, em 6 de junho, e cobraram um posicionamento da semana de moda mais importante da América Latina. Paulo Borges reconheceu que era hora de conversar e dar espaço para a “corajosa iniciativa”, como ele define. “O nosso papel é criar condições, mas o protagonismo é de todos os corpos criativos racializados.”

Ao falar sobre as funções nessa indústria, vale explicar que cada marca é responsável pela contratação das modelos. Aliás, o movimento Pretos na Moda também já confrontou os estilistas. Isso aconteceu quando as grifes se engajaram na hashtag Blackout Tuesday, em meio ao movimento Black Lives Matter, e postaram imagens pretas. “Surgiu uma revolta. Se nós não falássemos, iriam usar a causa de forma oportunista”, conta Camila. Segundo ela, foi nessa ocasião que a modelo Thayná relatou ter sofrido racismo em trabalhos para duas grifes: Reinaldo Lourenço (que não participará desta temporada e, na época, declarou ao jornal O Globo “errei e não tenho problema em admitir isso”) e Gloria Coelho, que tem apresentação marcada para domingo, 8. 

“Acho que todas as empresas eram racistas, nós temos que melhorar. Éramos racistas estruturais”, disse Gloria, que disse ter achado as cotas “uma iniciativa muito positiva”. “Neste desfile digital, tenho três mulheres: uma afrodescendente, uma branca e uma oriental.” 

A SPFW encara o racismo de maneira mais contundente em 2020, mas a semana de moda recomenda há mais de dez anos que as marcas participantes contratem pelo menos 20% de modelos afrodescendentes, indígenas e asiáticos. Entretanto, em 2009, o evento firmou um termo de ajustamento de conduta (TAC), que vigorou até 2011, com o Ministério Público do Estado de São Paulo, para que 10% dos profissionais nas passarelas fossem dessas raças.

 

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