Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Eu ali, eu aqui

É importante termos o foco e a resiliência necessária para conter nossos desejos, agora não legítimos, de estarmos fisicamente juntos

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2021 | 15h00

De repente, o tempo voltou atrás. Uma sensação de retorno ao passado, quando esse passado nem sequer havia deixado de existir, me invadiu. Como se tivesse sido só um suspiro e a realidade novamente se impusesse com força. Um ano se passou, mas não passou. 

Talvez tenha sido ingenuidade misturada a um otimismo fantasioso, que é característico da nossa cultura, que nos fez acreditar que tudo melhoraria sem consequências. A realidade nos exige voltar à casa, assumir a responsabilidade e ativar com consciência o modo restrição. Aceitar a limitação dos espaços físicos e a delimitação do espaço do outro para proteção. Entender finalmente que continuar em devaneio, realizando presencialmente festas, reuniões, noivados, aniversários, batizados e, pasmem, até lançamentos de moda, espalha um vírus que se fortalece em meio a um comportamento leviano. 

É importante termos o foco e a resiliência necessária para conter nossos desejos, agora não legítimos, de estarmos fisicamente juntos. Usar a tecnologia a nosso favor para conseguir ao máximo trabalhar e estudar. Foi com esse modo de ação em mente que saí de São Paulo grata por ter um casulo em meio a natureza. Em menos de 24 horas constatei com terror o quão a real transformação é lenta e exige mais comprometimento do que imaginava. 

Explico. Em São Paulo, sempre me reconheci trabalhando, constantemente conectada em reuniões, viajando, atuando nas mídias sociais, no trabalho, em família, em constante movimento por vezes compulsivo. Nos primeiros meses da pandemia, me redescobri viva de outra forma. Passei a sentir e a me conectar com o tempo, atuar com mais profundidade, ler com atenção, postar nas mídias sociais com foco, ouvir familiares, amigos e parceiros profissionais com o tempo necessário para reflexões. Em alguns meses com uma nova rotina, tive a certeza de que tinha mudado, fiz alarde sobre minha transformação, senti que era real e que tudo isso contribuiu para a nova Alice que, até então, chamei de pós-pandemia. 

Voltei para São Paulo em home office parcial, válido para toda a empresa e aos colaboradores, com um discurso que em pouco tempo foi se dissolvendo em uma nova agenda igualmente atordoante e desconectada com o meu ideal de trabalhar sim, mas também de viver esse trabalho e não correr sem sintonia com o propósito da minha profissão. 

A reflexão proposta é: “Por que eu aqui, longe da cidade, sou tão diferente de eu ali, em meio da São Paulo que tanto amo?”. Aonde me perco de mim mesma em descompasso com minhas convicções e crenças? Fechada de novo, enxergo o contraste, o outro lado. Nem pior, nem melhor, mas diferente da proposta que parecia resoluta. Vejo que o lugar é determinante de quem sou e como me comporto. Me enxergo vulnerável ao ambiente. Me entrego, então, novamente ao casulo para reencontro e reconstrução.

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