Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Empatia ou julgamento?

Vivemos um momento sensível e sairemos transformados, sim, e talvez até mais empáticos. Mas o respeito ao modo de vida e escolhas que constroem nossa própria imagem são fundamentais para nos reconhecermos e devem ser preservados

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2020 | 03h00

Encontrar lugares para curar nossas dores emocionais durante a pandemia tem sido uma busca natural. Precisamos de conforto e, de maneira legítima, estamos em busca de novos caminhos. Passamos a praticar exercícios físicos, ioga, meditação e aulas online de autoconhecimento – até a mera distração vinda de um entretenimento qualquer que nos envolva é válida. A meta é esquecer o mundo difícil lá fora. Enfrentar o momento mesmo quando se está em segurança, com saúde e em casa, é desafiador e fomos todos pegos de surpresa, despreparados para esse contato interno tão intenso com as nossas emoções. Estamos todos com o pavio curto, diria meu pai.

Nessa busca pelo alívio, passamos horas conectados todos os dias. E é esse o assunto da minha reflexão de hoje. Sendo a coluna sobre moda, trago esse pensamento para o tema e observação. Julgar e criticar comportamentos nas redes sociais de quem fala, usa, fotografa, trabalha ou só gosta de moda e divide suas dicas, vontades e fotos em suas plataformas têm se transformado em “modus operandi” constante de quem acredita que a época de pandemia não é adequada ao tema. Ou seja, o assunto moda se tornou quase um tabu, proibido em momento de seriedade. Será?

Assisto diariamente ao meu marido seguir as contas no Instagram de jogadores de basquete, tênis e futebol que, isolados em suas casas, postam vídeos recorrentes jogando na sala, realizando disputas virtuais, descobrindo e dividindo com seus seguidores suas novas “quadras”, em meio a sofás revirados e mesas de jantar (que viraram disputados espaços para bolinhas de tênis). Meu marido e meu filho vibram, riem, tomam como entretenimento e se distraem do nosso sofrimento diário vendo seus ídolos construírem um universo de fantasia dentro do mundo de que fazem parte: o esporte. Nunca, por uma só vez, li um comentário deles dizendo que não era adequado neste momento eles continuarem fazendo o que fazem, jogando.

Poderia continuar dando exemplos de outros setores, mas tenho que voltar à moda, onde habito. Infelizmente, nesse setor, não tem sido assim. A palavra empatia perdeu seu lugar para outra, o julgamento. Em vez de nos autopoliciarmos e usarmos nossa capacidade psicológica para sentir o que outra pessoa sentiria caso estivesse na mesma situação, vejo palavras de juízo constante sendo atiradas na internet. Resumo: se você não faz o que eu julgo ser empático em uma foto ou vídeo, você não tem empatia. Se está arrumada, é porque só pensa em roupa e não enxerga a futilidade do tema. Se está maquiada, é porque não entendeu o momento pelo qual passa o planeta. E por essa direção, as críticas de valor moral são misturadas com vestidos, batons e sapatos.

Ao assistir a uma live de uma das nossas musas da moda brasileira, Costanza Pascolato, me encantei com seu visual. Bem maquiada, com delineador, cabelos penteados, usando seus habituais maxi colares e anéis em quase todos os dedos, Costanza representava o universo do qual faz parte a moda. Não estava em questão quanto custava cada colar, se era de marca internacional ou feito no Brasil, nem se ela estava arrumada demais para sua quarentena feita em reclusão em seu apartamento de paredes vermelhas. Costanza é fiel à própria identidade e simboliza a moda. Como um jogador de basquete que, em casa, usa seus tênis, shorts e camiseta. Pessoas de moda se vestem de acordo com a moda e não existe nenhuma falta de respeito ou empatia nisso. A verdadeira empatia é a habilidade de compreender o outro. Vi Costanza na live e ela era ela mesma, e não um produto moldado ao que eu entendo ser empático sob meu ponto de vista.

Vivemos um momento sensível, a dor do outro nos molda, tem impacto profundo e sairemos transformados, sim, e talvez até mais empáticos. Mas o respeito ao modo de vida, trabalho, roupas, escolhas que constroem nossa própria imagem são fundamentais para nos reconhecermos e devem ser preservados. A moda como forma de expressão da nossa personalidade e como extensão visível da individualidade tem como berço a criação. Não deixar que os efeitos da reclusão decorrentes da pandemia acabem com o potencial criativo que nos leva à singularidade é fundamental. Não deixar de sonhar para viver esses dias com um pouco mais de leveza também.

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