Matteo Garrone
Matteo Garrone

Dior se inspira em universo mitológico

Pela primeira vez, apresentações exclusivas do mercado de luxo são compartilhadas minutos após seu lançamento

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2020 | 05h00

Existem momentos decisivos que têm o poder de mudar a história. Nos últimos dias, vivemos uma dessas quebras de paradigma. Na semana mais exclusiva de moda, a de alta-costura, realizada todo ano em Paris, uma das cidades mais luxuosas do mundo, assistimos ao rompimento de um modelo de pensamento. Em vez de desfiles presenciais para poucos, este ano eles foram substituídos por apresentações digitais que construíram uma narrativa para cativar a todos. O exemplo mais emblemático vem de uma marca icônica do mercado de luxo mundial, a Maison Dior. 

A casa francesa, hoje sob o comando da diretora criativa italiana Maria Grazia Chiuri, tem sido pioneira em movimentos feministas desde a entrada da executiva em 2016. Primeira mulher à frente da marca em mais de 70 anos de existência, Maria Grazia conseguiu como poucos equilibrar passado e presente para avançar e conquistar novos consumidores. Na semana passada, no entanto, era o futuro que precisava ser desbravado. Como realizar uma semana de alta-costura sem um desfile físico? Sem a presença de importantes clientes e jornalistas?

Em entrevista exclusiva, Maria Grazia contou os desafios que enfrentou para criar uma mensagem que, neste momento, pudesse ser a ponte entre a herança cultural da Dior, suas referências e o olhar para o futuro. “A criatividade me levou a mudar a linguagem e me forçou a pensar de maneira diferente. Eu me tornei, nesta quarentena que passei em Roma, minha cidade natal, uma obcecada em olhar para o futuro. Olhar para o passado, para o que já foi uma semana de alta-costura, não me levaria à transformação necessária”, diz a estilista. 

Maria Grazia definiu o que chamou de “sistema de reinvenção”: pediu ao diretor italiano de cinema e amigo Matteo Garrone que a ajudasse a transformar sua visão artística em uma história. Em formato de total colaboração, nasceu o filme O Mito Dior, em que imagens surrealistas e mágicas misturavam-se às criações da grife. Os vestidos de alta-costura tornam visível o invisível. Em uma floresta encantada, ninfas, sereias e criaturas mitológicas são hipnotizadas pela visão dos vestidos Dior. Cada uma delas escolhe uma peça que a representa e, depois, devidamente vestidas com elas, voltam à natureza. “A escolha da roupa sempre como representação de quem somos”, explica a diretora criativa da casa francesa. 

A estilista enxerga na mudança de formato e na comunicação uma grande oportunidade para que a mentalidade de que a alta-costura é para poucos seja revista. “O sistema todo começou a mudar antes da pandemia. A moda fala de contemporaneidade e o comportamento do cliente mudou muito. Estou feliz em conseguir me conectar e, assim, conectar a moda com mais pessoas.” Maria Grazia reforça minha primeira sensação ao assistir a um desfile de alta-costura anos atrás e diz que essas criações devem ser vistas por todos, assim como obras de arte em um museu. Não precisamos poder comprar para ter acesso à arte e, agora, felizmente, nem à moda. 

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