Desatando nós

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Trabalhar com mulheres é profundamente cheio de vida, histórias, risadas, segredos contados em meio a reuniões “sérias”

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2020 | 03h00

Depois de alguns textos sobre a mulher, fui “cobrada" em interações bem-vindas com meus leitores a falar sobre a minha relação pessoal e profissional com elas, as mulheres, fonte de tanta inspiração e convívio. Aceitei prontamente, mas o texto sobre um assunto que me parecia fácil e até intuitivo, não nascia. Minha mente foi inundada por tantos pontos de contato e ângulos aparentemente opostos que me pareceu impossível traçar uma única linha de raciocínio que realizasse o pedido “simples": falar sobre a minha relação com as mulheres.

Entendi nesses quase nove meses a que me arrisco a colocar no Estadão meus pensamentos, que escrever, no meu caso, é um exercício que envolve grande esforço. Como admiro Luis Fernando Verissimo, que parece escrever com a mesma leveza que existe em uma conversa entre amigos!

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Ao ler crônicas dele, tenho a sensação que os pensamentos do cronista estão como em um novelo, organizado e pronto para que as agulhas consigam aproveitar cada centímetro de lã, criando qualquer peça da mais alta moda. No meu caso, meu novelo está emaranhado. Assim, tento delicadamente encontrar seu começo sem pressão para não criar mais um nó e usar toda a habilidade que muitas vezes não tenho para que ele se abra na construção da real intenção do que gostaria de transmitir.

Um exercício de foco e resiliência, mas também de entrega e aceitação. Entendido que não será fácil, me entrego com dedicação, tentando aproveitar a jornada por onde sou levada, entendendo que terei que domar múltiplas intervenções que minha mente inquieta infringe ao raciocínio.

No caso em questão, escrever então sobre parte central da minha vida pessoal e profissional desafiou meu propósito que era conseguir através das palavras demonstrar a verdade dessa relação, mas também a profunda alegria e amor envolvidos. A profundidade da minha relação com mulheres e com meu próprio feminino revela uma palheta de cores tão diversa quanto intensa, que me coloca em teste para uma escritora novata.

Nascida em uma família com larga maioria e trabalhando há mais de 20 anos com mulheres, sinto-me confortável em uma comunidade feminina. Entendo por onde passam os desejos, anseios, carências e rancores. Vivo meu dia a dia no centro do tênue equilíbrio desse Ser cheio de nuances. Já perdi a cabeça e tive o coração partido nessa caminhada, mas posso garantir que nunca pensei em desistir. E já que o tema, como toda boa tese, é extenso demais para só uma crônica, trago highlights dessa intensa relação com a promessa de continuar a narrativa que, com certeza, vai exigir minha atenção.

Trabalhar com mulheres é profundamente cheio de vida, histórias, risadas, segredos contados em meio a reuniões “sérias”. Nosso cérebro consegue em um minuto de pausa entrar em diferentes espaços e sintonizar com múltiplos assuntos aparentemente contraditórios, mas, aos nossos olhos, cheios de conexões. Um encontro feminino tem sempre um degradê de emoções. Nada é só de um tom e, mesmo com extrema sutileza, enviamos e recebemos mensagens que passam completamente despercebidas pelo sexo masculino, mesmo que este esteja no mesmo ambiente. Que mulher já no ouviu do marido a frase “eu não vi nada disso acontecendo”? Pois é. Temos olhos e ouvidos pelo corpo todo. 

Assim, em dualidade a esse dom do “sentir”, o lado sombrio vem à tona, e um extremo equilíbrio me exige, muitas vezes, uma frieza que não é da minha natureza para lidar com intensas emoções femininas. A reação imediata em palavras ou atos de um ser tão poroso e perceptivo pode estar desalinhada com sua real intenção em uma conversa. A mulher, quando se sente negligenciada ou rejeitada, tem reações que chamo de, parafraseando um grande psicanalista amigo meu, “colocar fogo na casinha”. Uma força intensa que, quando usada de maneira reativa e desmedida, cria situações aonde o raciocínio lógico é deixado de lado e, muitas vezes, nos impede de um final de acordo com nossas expectativas e desejos.

Tanto mais interessante quanto complexa, a mulher tem dentro de si o potencial latente que, sendo direcionado, dá luz a tudo que toca.

ALICE FERRAZ É ESPECIALISTA EM MARKETING DE INFLUÊNCIA E ESCRITORA, AUTORA DE ‘MODA À BRASILEIRA

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