Caio Reisewitz / Moda
Caio Reisewitz / Moda

De volta às raízes

Com a natureza como fonte de inspiração, artistas ressignificam a flora em suas obras a partir da relação atual com o meio ambiente 

Ana Carolina Ralston, Moda

29 de agosto de 2020 | 16h00


Foi através da ausência da natureza que o paulistano Caio Reisewitz se deu conta de toda a sua magnitude e importância. Durante a infância, viveu anos entre a Baixada Santista e a casa dos avós na Cantareira, experiência que lhe trouxe conforto e memórias afetivas de estar rodeado por verde. “Na década de 1990, estudei na Alemanha durante oito anos, longe dessa vegetação tropical. Foi quando percebi a falta que esse convívio com o meio ambiente me faz”, conta. “A alteração do estado puro da natureza faz parte constante da minha pesquisa. Com a crise sanitária que vivemos, percebo esse movimento de volta às raízes das pessoas, que muito conversa com a minha produção artística.”

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O retorno ao cerne ambiental já vinha pontuando as notícias e os pensamentos de criativos ao redor do mundo. Isso porque a falta de cuidado com florestas e matas, principalmente no Brasil, não para de crescer. Na Amazônia, por exemplo, o desmatamento aumento 34% entre agosto de 2019 e o mesmo mês de 2020, o maior em dez anos. O tema voltou a ser uma das principais pautas do globo. A preservação e destruição das florestas são duas questões inerentes também ao trabalho da artista cearense radicada em Berlim Luzia Simons. “Trato sobre o enraizar e desenraizar como transparece na minha biografia migratória. Sem a natureza não conseguiria respirar”, explica Simons. Ela ressalta a dificuldade em viver este momento sem a devida atenção à natureza. “Sem respeitá-la, não iremos sobreviver como seres humanos – é preciso que haja mudanças de paradigmas em relação ao convívio no planeta. Temos que escutar o que está sendo dito pelos povos da floresta, conscientizar-nos de que somos parte indissolúvel e interconectada com tudo que nos cerca.”

A denúncia e a arte são parceiras de longa data. Um dos pioneiros nessa dobradinha tão essencial na preservação ambiental é o polonês naturalizado no Brasil Frans Krajcberg (1921-2017). O artista desembarcou no País em 1948 para participar da primeira Bienal de São Paulo, em 1951. A partir daí, foram anos vivendo entre Rio, Minas Gerais e Bahia, além de inúmeras viagens para Amazônia e Pantanal, nas quais passou a trabalhar com raízes e troncos calcinados e em uma pulsante produção fotográfica para denunciar as queimadas pelo Brasil.

Assim como Reisewitz e Simons, muitos artistas necessitam dessa ligação para que o trabalho artístico resplandeça. Elementos botânicos e memórias são pontos a ser percorridos por ambos. “Num primeiro momento, senti um certo bloqueio criativo por tudo o que está acontecendo no mundo. Mais recentemente, no entanto, passei a revisitar trabalhos antigos e novos, unindo-os em forma de colagem”, completa Reisewitz.

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