Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

De volta ao ar

Julho chegou, a vacinação avançou e mais e mais encontros pessoais foram sendo necessários

Alice Ferraz, Moda

25 de julho de 2021 | 15h00

A sensação passou a persegui-la e ela estava preocupada. Achava que tinha conseguido levar bem o período de isolamento, e que estava até certo ponto feliz com o novo equilíbrio entre trabalho virtual e presencial que tinha construído tijolo a tijolo ao longo de um ano e meio. Os primeiros meses, teve que admitir, foram desastrosos. 

A comunicação com a equipe não fluía, tudo demorava mais para ser compreendido, como se pela tela, sem a presença física dos encontros, ela precisasse do dobro de energia e atenção para se fazer entender. Por fim, se acostumou, e a reconfortante presença da rotina a fez gostar desse novo formato. Não queria mais pensar como era, nem como seria, estava imersa no presente e isso a acalmava. 

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Julho chegou, a vacinação avançou e mais e mais encontros pessoais foram sendo necessários. A rotina de zooms começou a ser alterada e sua presença física era cada vez mais necessária. Foi neste mesmo mês que ela acordou em uma segunda-feira com sua agenda presencial que, se não fosse pelo uso da máscara, seria igual à que tinha antes da pandemia. Esperou a felicidade de reencontrar a sua vida profissional como ela lembrava aparecer naquele dia cheio de encontros presenciais e nada. Em vez disso, foi tomada por uma “nova” e desconhecida angústia que estava em total descompasso com aquele momento “feliz”. 

Pediu a si mesma um tempo, lembrou-se da música Paciência, de Lenine. Ouviu algumas vezes a caminho do trabalho. Novamente estava exigindo de si mesma uma “elasticidade” e um nível de adaptação impossível. O problema, na verdade, é que ela não acreditava que estava se adaptando, pois aquela era sua vida anterior, parecia uma espécie de reencontro depois da pausa. Descobriu, em mais uma semana, no entanto, que não era só isso. O casulo em que se escondeu e que a protegeu durante a pandemia parecia ter tornado sua pele mais frágil ao contato e exposição diários. Uma ansiedade desconhecida até então passou a tomar conta dela a cada manhã, a cada encontro. 

A força usada para ter foco virtualmente atrapalhava agora uma conversa mais solta. No Zoom, cada um fala no seu tempo e dar esse tempo da fala é necessário para que a reunião aconteça. Nos encontros presenciais, falamos ao mesmo tempo, os tempos são outros e essa liberdade agora causava nela uma angústia. Sentia-se perdendo tempo? Medo da falta de controle? Na tela, controlamos o ambiente, tiramos a câmera, tiramos o som, mostramos o ângulo que queremos, usamos o chat para nos comunicar em paralelo com pessoas da sala ou fora dela. 

Ao vivo, ah ao vivo, a vida surpreende, é dinâmica, imprevisível. Isso sempre fez a vida emocionante para ela, mas agora a assustava. E, é preciso ter paciência.

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