Divulgação/Ilustração: Leonardo Albertino
Divulgação/Ilustração: Leonardo Albertino

Cultura: Pandemia cultural

Como museus, galerias e instituições do setor estão agindo e reagindo ao momento de profunda mudança da cena artística ao redor do mundo

Ana Carolina Ralston, Moda

25 de abril de 2020 | 16h00

Era meados de março. Os preparativos para a exposição de uma série de desenhos e anotações de Tarsila do Amaral, com curadoria da Aracy Amaral, no Fama Museu, em Itu, estavam a todo o vapor. Há mais de 50 anos, tais imagens não eram mostradas ao público.

Apesar de na Europa o número de infectados pelo novo coronavírus já ser crescente, a sensação de muitos era de que talvez o Brasil passaria incólume a tal acontecimento. Ingenuidade (ou ignorância, talvez?), mas fato foi que a mostra “Tarsila: Estudos e Anotações” teve sua abertura adiada indeterminadamente um dia antes da data marcada. Essa foi uma das primeiras mostras no Brasil a ser temporariamente canceladas, seguida de uma enxurrada de outros eventos culturais que deixaram de ocorrer, entre eles a SP-Arte, a mais importante feira de arte da América Latina.

Muitas dessas medidas tomadas em centros culturais ao redor do globo colaboraram para que a doença não se alastrasse entre a população. No fim de janeiro deste ano, a Paris Musées, instituição pública da capital francesa responsável por gerir 14 museus da cidade, liberou ao público o acesso a milhares de obras que ficam em seu acervo. Começava, assim, um movimento, sem data para terminar, que pode mudar o cenário das artes para sempre. 

A partir da força que só as grandes calamidades mundiais têm, artistas, curadores, museus, instituições e galerias começaram um processo de renovação em diferentes direções. A tecnologia, ainda vista com certo receio por muitos deles, era agora a principal aliada para que um conteúdo de qualidade chegasse aos olhos e ouvidos de milhões de pessoas.

Com obras digitalizadas a toque de caixa, acervos de endereços como os norte-americanos Metropolitan e Museu de Arte Moderna, o MoMA, além dos brasileiros Masp e Pinacoteca, passaram a ser acessíveis pela internet. A plataforma Google Arts & Culture tem colaborado bastante com essa iniciativa: atualmente mantém parcerias com mais de dois mil museus no mundo, permitindo a entrada em coleções e exposições de forma digital, como a mostra “Coco Chanel: Modernismo”, sobre a influência da estilista para a moda do século 20, em exibição online no Metropolitan de Nova York. Há também ótimas análises de obras como Noite Estrelada, de Van Gogh, com mais de dez imagens detalhadas da pintura, disponibilizadas pelo MoMA, parceiro oficial da plataforma.

É certo, no entanto, que, por mais dinâmicas que sejam tais iniciativas, a experiência tridimensional da visita ao museu, que inclui vislumbrar o traço de Pablo Picasso na gigante Guernica – ou até a sensação curiosa de ver a famosa Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, em seu tímido tamanho em relação a nossa expectativa –, vai muito além do que é possível vivenciar por meio da tela dos nossos computadores ou celulares.

A rede social Instagram e seu IGTV tornaram-se fortes aliados na luta em favor da arte. Obras comentadas por curadores, visitas guiadas conduzidas pelos próprios artistas e séries sobre o processo criativo de autores importantes preenchem o feed de notícias do internauta – material até então pouco colocado à disposição do público. Outras instituições, como o British Museum, em Londres, e o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, conseguiram disponibilizar visitas 3D pela instituição e por mostras exibidas anteriormente nesses espaços.

Plataforma humanista

Entre as galerias, as atividades seguem linhas similares, sempre usando a tecnologia como elo e forma de motivar o consumo da informação. Com as vendas praticamente paralisadas, tais espaços têm unido forças em prol de causas mais humanistas e em sintonia com o mundo. No Brasil, artistas, profissionais da arte e galerias encamparam a campanha Horizontes para promover ações de alívio à crise gerada pela pandemia em comunidades vulneráveis. Dessa forma, uma afinada seleção de obras está sendo vendida em uma plataforma digital com valor revertido a instituições que estão agindo ativamente em combate ao vírus.

Todo esse novo universo tem feito o público mergulhar em um sentimento já conhecido da vida contemporânea, porém, embalado em um novo nome: “Infoxication”. O termo faz referência a uma sobrecarga de informação online que, ao mesmo tempo que dá aos seus usuários um consistente fluxo de imagens e dados, também acaba gerando ansiedade. Se o número de programas culturais já lhe causava um calor no coração – ou até certa inquietação –, mesmo com o distanciamento social isso não mudou. Resta a esperança de que esses primeiros passos na vida virtual cultural se tornem tão emocionantes e multissensoriais quanto o que se acostumou a sentir no mundo real.

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