Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Cringe? Eu?

Ter um hábito cringe quer dizer ultrapassado para a próxima geração. E assim descobri que calça skinny é cringe (ufa, dessa escapei) e sapatilha de bico redondo idem (obrigada, geração Z)

Alice Ferraz, Moda

27 de junho de 2021 | 10h00

Em 20 anos trabalhando com moda, assistindo ao ciclo de tendências cada vez mais ágil e ao comportamento de um público informado diariamente pelas novas tecnologias, ela achava que estava imune a críticas ao seu próprio estilo, seja ele de se vestir ou em relação ao comportamento de um tempo.

Gostava de usar uma frase sobre um tal túnel do tempo de onde algumas pessoas pareciam surgir, sem conseguir enxergar as mudanças que ocorreram ao longo do caminho. Elas simplesmente “saltavam” de um ponto a outro sem terem absorvido as informações que as deixariam com o visual contemporâneo. Era um julgamento feroz, mas necessário quando usado cirurgicamente em ocasiões de consultoria, como um choque de realidade para quem queria e precisava atualizar a imagem. Para ela, pelo menos essa parte da vida parecia estar resolvida. Era uma expert no assunto e assumia a posição com alegria.

Até que, em um sábado de frio e sol na praia, uma amiga próxima surgiu com a filha de 17 anos e disse: “Minha filha é sua fã, quer estudar moda!”. O momento transformou-se em alegria genuína por saber que poderia influenciar uma nova geração nessa área, que é sua vida e paixão. Em poucos minutos, a jovem demonstrou conhecer tudo sobre sua carreira, modo de pensar e até algumas lendas do mercado. “Sei tudo, vejo você nas mídias sociais desde que tenho dez anos e amei o jeito cringe como você escreveu seu livro.” Pronto, um buraco se abriu e a expert em tendências com imunidade comprovada caiu rodopiando pelo túnel do tempo. Cringe? Eu?

Se você, meu caro leitor (será que “caro” é cringe?), não sabe do que estou falando ou se sabe e acredita que não passará por uma situação parecida, pode ter a certeza de que está enganado. Meu livro, um best-seller chamado Moda à Brasileira, se transformou em 2021 em uma mostra do meu comportamento cringe! Isso quer dizer que seu conteúdo está desatualizado? Talvez um pouco, claro, mas não se trata disso.

Ele é cringe pela forma, por refletir modismos de um tempo que passou. Por exemplo, segundo a geração Z (de 11 a 26 anos), usar os emojis amarelos que recheiam cada página do livro é cringe, o que coloca esses símbolos (que particularmente eu amo) em um ícone cringe – e contra essa constatação, nada podemos fazer.

Vamos aprofundar mais. Ter um hábito cringe quer dizer ultrapassado para a próxima geração. E assim descobri que calça skinny é cringe (ufa, dessa escapei), sapatilha de bico redondo idem (obrigada, geração Z), e, para quem pensa que só os amantes da moda serão julgados, saibam que usar Facebook também é considerado um comportamento cringe pela geração Z.

O curto encontro no meu sábado virou uma tarde de consultoria. A expert em moda, que está fora de moda, se debruçou sobre a explanação minuciosa da fã (talvez ela nem seja mais) e a crônica já escrita foi deletada ao entardecer para uma nova e menos cringe narrativa. Conclusão temporária: assumir as opções e comportamentos cringe que fazem já parte da minha identidade, elementos que vieram ao meu lado caminhando lá no túnel do tempo e que continuam a me identificar, emojis amarelos e noticiários estão na lista. Sem nossas memórias afetivas, quem somos?

Próximo passo, contratar minha ex-fã e consultora da geração Z para um estágio. 

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